A corrupção nos transportes

A corrupção nos transportes

O que você e os setores perdem com essa prática

Nos últimos dias, mais um escândalo de corrupção veio minar, ainda mais, as estruturas do já deficiente Ministério dos transportes. Não cabe aqui citar os já conhecidos nomes nem detalhar as tão noticiadas ações de corrupção tão praticadas nessas divisões. Cabe apenas mencionar que o antigo DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagens), atual DNIT (Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes) foi extinto devido às sérias e comprovadas ações de corrupção. O que se repete, com maior intensidade e monta no DNIT. Qual será o próximo nome para que continuemos a sofrer com esse câncer da corrupção que mata nosso desenvolvimento?

O DNIT se lamentou há pouco tempo que seu orçamento seria insuficiente para tantas necessidades que nossas rodovias apresentam. De R$ 9 bi chegaríamos aos R$ 30 bi anuais nos próximos oito anos para que fossem atendidas as necessidades básicas. Não precisa fazer muita conta para sabermos que, só nos últimos dez anos, as verbas seriam suficientes para duplicar os trechos mais importantes das BR’s, deixar perfeitamente trafegável os demais trechos implantados e ainda sobraria para as implantações tão necessárias ao escoamento de cargas, hoje limitado pela pouca ou muita corrupção. Sabe o que é pior? Quantas vidas se perderam devido a essa corrupção tão presente nas estradas de todo o nosso Brasil?

Não adianta mais mudar de nome. Tem que mudar de atitude. Um setor tão vital ao crescimento econômico do País não pode ser administrado com esses fins interesseiros, seja politicamente ou de forma pessoal. Sabemos que isso é de difícil erradicação, mas como fazer se é de extrema necessidade?

corrupção nos transportes - DNITQuanto mais impostos são pagos (só nesse ano superaremos em mais de 13% o ano passado) se percebe o uso danoso contrário ao curso do desenvolvimento de que tanto necessitamos. Só no ano passado, em seis meses, uma única modalidade de corrupção (sim, são muitas modalidades) desviou mais de R$ 780 milhões. Suponhamos aplicar a regra de três na atual situação com o plano orçamentário em R$ 30 bi. Chegaríamos aos R$ 2,6 bi desviados ao ano. Repito: só nessa modalidade. Daria para diminuir significativamente o custo de manutenção de frotas, o estresse nas roteirizações, o tempo e a qualidade nos ciclos de abastecimento e, o mais importante, os acidentes de cargas e passeios que, com frequência, ceifam vidas.

Com estradas em melhores condições elevaríamos o PIB (Produto Interno Bruto) tornando o País mais rico e elevaríamos a taxa de crescimento anual em cerca de um quarto percentual. Mais empregos e melhores perspectivas de vida e de mercado numa tradução simples.

Os frequentes escândalos são mais danosos do que imaginamos. Eles não só freiam o desenvolvimento como nos privam de soluções, muitas vezes simples. Isso parece estar tão incorporado ao nosso sistema que somos incapazes de mensurar nosso crescimento sem essa mazela. Não é difícil saber que ganharíamos muito em qualidade de vida já que nosso trabalho e vida pessoal seriam muito mais fáceis de administrar. Talvez a incapacidade de lidarmos com isso nos leve a incorporar, de forma tão natural, à nossa rotina. Um grande erro.

Não há como crescer sem uma boa infra-estrutura de transportes. O atual governo sabe disso e vive um momento delicado. Nós sabemos disso e pouco se pode fazer. Nossos concorrentes sabem disso e têm mais facilidades em competir conosco – e ganhar. O preço é alto. E, pior, isso desencadeia várias atitudes, as quais abordarei futuramente, como a corrupção dentro de outros segmentos e uma em especial: a corrupção dentro da logística.

Mas para que possamos discutir esses assuntos delicados, precisamos saber de onde vem e como acontece isso. Por mais assediado que seja um determinado setor, a corrupção não nasce nele. Nasce numa pessoa que espalha a obtenção de vantagens e, impunemente, planta essa facilidade na intenção de alguém sem ética e sem moral.

Há poucos dias percorri mais de dois mil quilômetros em rodovias federais. Foi o suficiente para ver a precariedade, acidentes fatais e pessoas alheias a tudo isso. Já não se fala dessas dificuldades. A vida segue. Mesmo que esse assunto seja chato e repetitivo, não podemos parar de abordá-lo. Não podemos nos convencer de que isso é normal. Quero me convencer de que podemos mudar isso para que eu possa continuar fazendo a minha parte – um pequeno, porém existente, pedaço de um todo.

Responda a essa pergunta: O que seria diferente na sua vida se as estradas fossem melhores?

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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.

  • Cíntia Barbos

    É como você diz, " Não há como crescer sem uma boa infra-estrutura de transportes" e infelizmente, esse é um tipo de assunto que as autoridades não estão nem um pouco interessados em resolver, a não ser, se tiver algum interesse financeiro em jogo…Parabéns pela matéria, parabéns pelas palavras Marcos e realmente nunca é chato falarmos sobre esse assunto, que nos causa tanta frustração.

    Respondendo a pergunta: Seria muito diferente, apesar da atenção ser a mesma ao percorrer as estradas, com certeza, com uma boa infra estrutura, evitaria sim muitos acidentes e não colocaria em risco a vida de tantas passoas, seja viajando a lazer ou a trabalho.

    • Daniel Santos

      Cíntia Barbosa, não podemos afirmar que as autoridades não estão interessados em resolver (ironia).

      O que eles fazem é propor soluções medíocres, como a restrição de circulação em horários de pico, entre outras.

      Nós da área de Logística e Supply Chain sabemos que, em breve, essas soluções não atenderão as nossas necessidades, e, claro, de nossos clientes.

      O mais triste é não ver entre os indicados ao Ministério dos Tranportes alguém com conhecimento técnico suficiente para propor boas alternativas, como a criação de um Pólo no subúrbio da cidade.

      Ah, mas o Governo não tem dinheiro para isso. Precisamos de estádio de futebol…

  • flavio sampaio tavar

    O povo BRASILEIRO deveria acompanhar mais de perto a política BRASILEIRA e passar a cobrar uma melhor gestão publica dos nossos governantes que adoram uma corrupção o ministério dos transporte sempre foi alvo destas quadrilhas que são responsáveis por vários acidentes em BRS mal conservadas. e a farra vai continuar independente de quem for o proximo ministro o rombo vai sempre existir.

  • Gislene A Moura Mart

    No aspecto econômico, com certeza menores custos logísticos com mais competitividade internacional, segurança e crescimento econômico, levando em conta as movimentações econômicas (produção, insumos, etc.) do país está concentrado há muitas décadas no modal rodoviário (cerca de 60%, utiliza-se o transporte rodoviário).

    Para todos nós… melhor qualidade de vida, segurança, saúde e menor tempo, principalmente para àqueles que a utilizam para o seu ganha pão,como por exemplo "nossos" caminhoneiros que se expõem aos riscos dessas estradas precárias diariamente e a probabilidade de acidente é maior.

    Gislene

  • Márcio Silva

    A informação realmente é tudo. Pena que muitos prefiram viver alheios a esses problemas. Também já perdi pessoas próximas em acidentes banais. Tudo causado por essa maneira de lidar com o dinheiro público. Minha resposta é que tudo seria mais barato, rápido, bonito e não nos causaria essa vergonha. Parabéns pelo texto.

  • Thiago Picheka

    Acredito que seu texto é a clara indignação de todos os que estão no ramo de logística!!!

    R: Minha vida seria mais fácil, rápida e segura!!!!

    Estou ansioso para a continuação deste assunto…

  • Marcos Auréli

    Olá a todos! Quando escrevi esse artigo, sabia que eu leria respostas como a do Renato. Essa é a consequência mais grave da corrupção. Constroem-se prédios com areia sem se importar com a vida de quem vai morar. Desvia-se dinheiro de obras vitais à sociedade sem se importar quantos vão pagar com a vida. São muitos. Solução? Gostaria muito de ter uma. Por enquanto, não considerar isso normal é tudo o que tenho.

    Quanto à questão das passagens aéreas, o perigo nas rodovias estimula outra modalidade de locomoção (de pessoas, pois de cargas para movimentar a economia realmente não viabiliza em nada). Esse aumento se deve às promoções como a Marina citou mas, principalmente, à ascensão financeira das classes sociais brasileiras que possibilita experimentar de novos produtos e serviços.

    Só prova que esse paradoxo entre o crescimento e a corrupção nos atrasa muito e diminui a competitividade como citou o Paulo Sérgio e o Daniel lembrando o SLA. Ainda lembro a enorme diferença entre solução e adaptação. Estamos, a cada dia, nos adaptando aos problemas e não os solucionando.

    Sucesso a todos.

    • Daniel Santos

      Sem dúvidas, o povo brasileiro utiliza de uma das suas características mais evidentes, a do "jeitinho".

      Mas vale destacar que, mesmo com todos os obstáculos que todos os colegas postaram, a nossa logística consegue ser uma das melhores na América Latina. Apesar de nos adaptarmos aos problemas, não conseguirmos apoio do Governo e etc, os problemas são solucionados com a nossa criatividade. E é essa criatividade que garante um nível de serviço razoável se comparado com grandes potências, mas muito bom considerando nossas rodovias, frotas, entre outros fatores citados pelos colegas.

  • Reginaldo Santos

    Hoje nossos planos levam em consideração a precariedade das rodovias. Concordo com o Marcos que estamos errados em incorporar isso na nossa rotina. Mas como o brasileiro é o rei do jogo de cintuta, a gente vai vivendo. Como minha resposta é que teríamos mais tempo para família, amigos, crescimento profissional e maior facilidade nas nossas tarefas com menos riscos, conclui-se que o erro começa nesse "jeitinho" que sempre damos para nos adaptar e concordarmos com essas situações.

  • Marina Marmiroli

    Respondendo ao Pedro Filippe: Na minha opinião o custo da passagem área é dada por incentivo das empresas aéreas que vem preferindo um avião lotado com passagens baratas do que um avião vazio com passagens caras, e claro que passagem barata atrai novos compradores.

  • Marina Marmiroli

    Ótima matéria mas não podemos esquecer das ferrovias que seriam primordiais para um país igual o Brasil que exporta produtos com baixo(ou sem nenhum) valor agregado como commodities, a amplificação das ferrovias sim ajudariam em muito, tanto no crescimento da exportação quanto no preço a que esses produtos são vendidos internamente.

  • Basta comparar o custo do quilômetro das rodovias brasileiras com de outros países !

  • Pedro Filippe

    Matéria muito interessante.

    Creio que falta um interesse maior do governo em controlar e investir na logítica brasileira, como diz na própria matéria é um investimento muito benéfico para o país, querendo ou não se tem reflexo de um investimento deste em todos os outros setores da econômia, todos setores para dar certo dependem de uma logística bem planejada.

    Respondendo a pergunta, meu trabalho seria concluído com menos gastos, mais qualidade e eficiência. Concerteza eu teria também mais prazer em viajar de carro, hoje em dia com as estradas precárias e perigosas do jeito que estão prefiro procurar um outro meio para viajar.

    Gostaria que alguem tirasse uma dúvida minha, será que o baixo custo das passagens aéreas pode ter sido influenciado por esta questão do perigo e precariedades das rodovias também ou apenas um fato de oferta e demanda?

    Pedro Filippe

  • Daniel Santos

    Ótima matéria Marcos, você foi muito feliz em suas palavras.

    Respondendo a pergunta, certamente os custos com Logística seriam menores, com uma melhoria considerável no SLA.

    Já na minha vida pessoal, seria estimulado a viajar mais, conhecer melhor meu país sem sofrer com tantos danos ao carro e, principalmente, sem risco de morte.

  • Robert S. Costa

    O amigo Douglas Fala de IPVA, pegando essa linha de raciocínio quero resaltar que além de pagar IPVA ,temos que pagar pedágio , acho isso uma injustiça, si pagamos pelo IPVA o governo tem obrigação de nos dá uma estrada boa de qualidade.

  • Renato S. Rodrig&eci

    Respondendo a pergunta:

    Meu melhor amigo ainda estaria vivo.

    Parabéns pela matéria.

  • Douglas Heinz

    Privatização das rodovias federais na modalidade menor tarifa com redução proporcional do IPVA repassado à união.