A inevitável falta de combustível no Brasil

A inevitável falta de combustível no Brasil

Há alguns meses foram abordadas as questões logísticas sobre o desabastecimento de combustíveis no Brasil no artigo Vai faltar combustível, carros não! em que as repercussões superaram as expectativas. Matéria semelhante foi ao ar quinze dias depois em um conceituado telejornal que apontava o Amapá como o estado brasileiro mais prejudicado devido, entre outros, seu abastecimento depender exclusivamente da logística de Belém.

Contudo, como já antecipado, isso não é um problema só no Amapá. Segundo o presidente do Sindicato Nacional das Empresas ­Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), Alísio Vaz, desde 2009, o consumo de gasolina cresceu 58%. Números jamais vistos na história do País. Números que nos colocam em uma situação de perigo tendo em vista uma infraestrutura rodoviária, ferroviária e portuária de extrema precariedade para uma evolução tão rápida e com mudanças significativas no poder aquisitivo da população.

Vamos poder experimentar um pouco disso neste mês de dezembro, já que o consumo habitualmente cresce cerca de 10% em relação aos demais meses. Esse impacto pode ser ainda maior, pois a Petrobras constatou um crescimento de 19% no consumo de gasolina de janeiro a setembro em comparação com o mesmo período de 2011.

Assim como no artigo anterior, o propósito não é de “terrorismo”, é de pura informação. Assim como para o poder público, a coisa vem sendo vista só como “informação”, pois o desabastecimento é inevitável na opinião das pessoas que conhecem os pontos fracos da logística no Brasil.

O que fazer, então? Aqueles que tomam decisões no País se voltam ao planejamento, tardio como sempre, mas de forma absolutamente necessária. Talvez você não saiba, mas dentro desse mesmo grupo que cabe resolver, há os que têm focos diferentes. A própria Petrobras, por exemplo, decidiu diminuir seus estoques com o intuito de transformar o combustível armazenado em dinheiro para investimentos.

A primeira coisa que se vem à mente não é o fato em si do desabastecimento, afinal não convivemos muito com isso nos últimos tempos; mas há algo que conhecemos muito bem que é a questão dos preços. Você deve estar interessado em saber quanto pagaremos por um litro de combustível. Tenho uma pista: De acordo com o último balanço da Petrobras referente ao terceiro trimestre do ano, a importação além do limite é um dos principais motivos para o crescimento de 29% no custo dos produtos. Só neste período, houve alta de 4% na demanda de diesel e gasolina em relação ao trimestre anterior. Conhecemos o efeito da lei da oferta e da procura. Por isso, seria raso afirmar que o preço deva aumentar em torno de 25 ou 30% nos próximos quinze meses, já que a evolução desses números tem períodos menores e de difícil previsão de impacto com os crescentes números da indústria automobilística, com os poucos indícios de investimentos na logística do setor e com o crescimento sem planejamento que o País saboreia a parte doce – por hora.

O superintendente de Abastecimento da Agência Nacional do Petróleo (ANP), Dirceu Cardoso, afirmou que a agência está elaborando uma resolução para obrigar as distribuidoras a manterem um estoque adequado de combustíveis. Ora, seria cômico se não fosse trágico. A maioria das distribuidoras armazena seus produtos nas bases da Petrobras… É como ordenar que um velhinho de cem anos de idade vença o Anderson Silva num octógono.

O caminho não é esse. O Brasil pecou em não investir na modernização dos parques de refino de petróleo como investiu nas prospecções. Agora a imagem e credibilidade da Petrobras correm riscos diante dos mercados internacionais. No caso do Amapá, segundo o gerente executivo de operações da BR Distribuidora, Jorge Celestino Ramos, estão sendo construídas bases para descarregamento de combustível em Porto Nacional (TO) e em Cruzeiro do Sul (AC) que vão diminuir a dependência do estado em relação a Belém (PA). E a dependência nacional do abastecimento através da importação, vai até quando? Temos uma crise se desenhando para os próximos meses e correções de infraestrutura que levarão anos.

Como informei no citado artigo anterior, os postos “bandeira branca” (aqueles que não têm vínculo com uma distribuidora) começam a fechar as portas. Eles agora são “rejeitados” pelas distribuidoras para se tornarem bandeira, pois a própria distribuidora não garante seu abastecimento e não vê motivos e meios para assinar novos contratos.

Como nossa capacidade de produção já não nos atende há anos, um paliativo seria direcionar mais importações elegendo – ou sacrificando – uma estrutura logística portuária e aumentando as operações de cabotagem. Claro que isso sobrecarrega as estruturas de todos os portos, mas paralelamente, investir e trabalhar duro nesse período para aumentar a oferta de combustível. O perigo está em saber que a cadeia logística funciona como a “cadeia alimentar”. Deve-se planejar bem para não extinguir outros mercados nesse período que também tem que ser curto.

Mais uma vez, é o povo brasileiro que paga a conta da falta de compromisso de quem é responsável pelo planejamento e pelas tomadas de decisões. E quem diria?[…] Somos vítimas do nosso próprio crescimento.

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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.

  • Cíntia Barbosa

    Não posso deixar de parabenizar o autor pelo texto e pela visão…Infelizmente só o que a gente ouve falar agora, é sobre a falta de combustíveis nos postos, principalmente com o aumento constante do número de carros todos os dias. e como sempre o nosso país nunca está preparado para essas situações…Boa matéria!

  • Claudio Muller

    Intrigante e verdadeiro esse texto. Já vejo no dia a dia.