Armazenagem e expedição – parte II

Armazenagem e expedição – parte II

A missão dos números

Nessa minha curta trajetória de escrever sobre logística e outros assuntos ligados ao mercado de trabalho, procuro passar um pouco da minha experiência como profissional da área e, com erros e acertos, chamar atenção para coisas obvias que não percebemos e para outras que realmente incomodam e que necessitamos trabalhá-las para que, com persistência, paciência e humildade, se transformem em obstáculos vencidos.

armazenagem e expedicao Uma das muitas coisas que me incomodam, é a falta de continuidade de processos dentro de empresas que acabam por desmotivar, através da desvalorização, equipes inteiras. O que se percebe é que algumas gestões só se preocupam com a compra e com a venda. Só se preocupam com a produção porque sabem que sem produção não há venda – Pior que algumas nem isso percebem. E a armazenagem, não importa? E o almoxarifado, tão importante para manter a circulação do “sangue” nas empresas, não tem valor?

A maioria dessas empresas cuja gestão parece “pausar” o interesse por seu dinheiro após as compras de matérias-primas e peças, e só percebê-lo novamente com a ação da venda de seus produtos, trata com descaso o fluxo que permite várias melhorias dentro de seus custos e processos. Faz-se vistas grossas para esses recursos que não geram lucros diretos para a empresa e esquecem que eles podem gerar muitos prejuízos. Não nos importamos com o que comemos até que nos faça mal. Entre a fome e a compra do alimento é importante saber como foi tratado e feito para evitar problemas. Mas, como não temos tempo ou interesse, vamos contaminando nossos corpos (empresas) com o que nos proporcionamos de ruim.

Fui motivado por um comentário sobre o primeiro artigo a me estender no assunto, pois acredito que essa situação é vivida por muitos em milhares de empresas que não lidam bem com os valores de seus estoques. O comentário expressava que esse profissional trabalha em um grande atacadista de tecidos e ele é responsável pelo controle de estoques que conta com cerca de 5 mil itens. Esse controle é realizado com uma simples calculadora, pois os diretores não investem em tecnologia. Ainda segundo ele, vivem na idade da pedra e conta com a paciência para, um dia, reverter esse quadro.

Em resposta a esse comentário tão atual dentro do processo de armazenagem em milhares de empresas, e não só de pequeno porte, vou pular o trivial queimando algumas etapas que acredito já tentadas por diversos profissionais da área, como: “Seu estoque precisa ser controlado e eu não consigo sem condições de trabalho”; “está dando diferença e vai comprometer as compras e a produção” ou o mais praticado: “Vamos ter que ajustar”.

Partindo direto para o que faz a diferença, vamos falar de números. A Armazenagem e a Expedição lidam com muitos números, como outros setores. No entanto, os números dos estoques, que incluem os produtos acabados, são tratados de uma forma indireta já que eles aparecem nas compras ou no faturamento. Aqui mora o perigo. As perdas e falta de controle aumentam, e muito, os custos de produção. Dessa forma, as vendas vão sendo afetadas e só se percebe nas compras depois de um certo período. Sua empresa já pode estar abarrotada de itens que sua manutenção e produção não darão conta. Dinheiro parado. Diferentemente de um estoque alinhado, esse dinheiro circula dentro da empresa e passa por muitas melhorias devido a um controle eficaz.

Em muitos casos, incluindo o comentado pelo leitor, esse problema é muito mais perigoso para a estrutura financeira da empresa, pois o estoque tende a um momento no mercado, moda ou outro tipo de sazonalidade que traz a obsolescência do estoque através disso ou da falta de controle de circulação por meio de um sistema PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai).

Considero o poder dos números algo surpreendente. Em uma de minhas palestras, exemplifico a importância de R$ 0,01 (Um centavo) em uma conta bem simples: Dê-me um centavo no dia primeiro e dobre o valor acumulado a cada dia e veja quanto estará me dando no dia trinta. Some os valores de todos os dias e verás que em um mês você faliu e eu enriqueci astronomicamente. É preciso dar valor às menores coisas que lhe possa parecer.

Dessa forma, sempre sugiro que transforme o estoque, deficiências, furos, movimentação e outros fatores em números, em R$. Toda gestão, por mais despreparada que seja sempre se sensibiliza quando os argumentos viram moeda. É uma das formas de obter a continuidade acabando com aquela “pausa”, pois agora compras, estoques e vendas falam a mesma língua. Assim, pode-se pensar em melhores equipamentos, treinamento de pessoal e, para outros, sair da calculadora para um sistema informatizado de estoques. Afinal, o mercado está repleto de sistemas com preços acessíveis e muito funcionais de acordo com sua realidade.

Como eu terminei o artigo anterior atentando aos cuidados com a Armazenagem e Expedição, citando que não se morre apenas de infarto, mostre que a dor no bolso da sua empresa incomoda bastante. Não desistam, transformem!

 

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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.

  • Sérgio Ferreira

    Muito bom trabalho Marcos,trabalho no setor de expedição e passo por dificuldades por ainda trabalhar quase sempre como num sistema de pronta entrega, onde o faturamento , ou seja a emissão de nota fiscal é feito quando o produto ainda está em fabricação, dai vc pode imaginar como é na hora do despacho dessa mercadoria, a qualidade que sempre busquei, se vê atropelada pela URGENCIA da liberação de uma nota que nem deveria ter sido emitida, quem paga o preço: A EXPEDIÇÃO, nem sempre valorizada….

  • wilson

    muito bom seu artigo .me identifiquei com os assuntos abordados, trabalho em um centro de distribuicão atacadista q no momento sofre com um grande aumento nas venda sem estrutura logistica suficiente para a demanda[ com isso gerando muitos custos com demiçoes e admiçoes causados por grande numero de funcionarios insatisfeitos]

  • Giovanno.

    Mais uma vez, excelente artigo. Trabalho na área de armazenagem e sei como é difícil colocar na mente da diretoria a importância da organização e controle.

  • Cíntia Barbos

    Impressionante como o nosso amigo Marcos sabe prender a nossa atenção com seus textos e fazer de forma que todos entendam e apredam com facilidade os assuntos em questão.

    Nessa área especificamente, mas todas, em geral, é importante sabermos controlar os gastos e aprender a otimizar nossas tarefas, afim de facilitar nosso trabalho. Muito bom!

  • Cíntia Barbos

    Impressionante como o nosso amigo Marcos escreve seus artigos de uma forma que todos entendam e aprendam com facilidade o que ele quer dizer em seus textos.

    É importante saber controlar nossos gastos e otimizar nossas tarefas, afim de facilitar nosso trabalho. Muito bom!

  • Excelente artigo, Marcos! Em função da importância da Logística nas empresas, vou desenvolver o meu Trabalho de Conclusão (Graduação em Administração) voltado para a Gestão de Suprimentos de minha organização, através de uma pesquisa-ação (avaliar a realidade, propor e executar mudanças e avaliar os novos resultados). O material que desenvolves está ajudando (e muito!) no desenvolvimento dos conceitos do meu trabalho!
    Eu comento com meus sócios que nosso estoque é o nosso "cofre aberto", pois é nele que fica nosso dinheiro e que, se não cuidarmos bem dele, vamos perdendo e nem percebemos. Daí a importância dos controles e da padronização de operações e procedimentos.

  • Otimo texto Marcos.

    Toda empresa está preocupada em seus lucros, em ser a melhor perante os concorentes,pois a mesma

    empresa esquece da sua expedição e armazenagem.

    Sendo que a armazenagem são setores que com alta qualidade geram bons lucros as empresas.

  • Everaldo Andr&eacute

    Ola pessoal !! Trabalho com distribuição de tintas e o que acontece na empresa é exatamente isso, entopem o estoque com mercadoria e depois querem que eu faça magica para organizar, trabalhar com logística com quem não conhece do assunto é muito difícil..abraço, excelente artigo como sempre !!

  • É muito bom ver o reconhecimento ao trabalho do Marcos e saber que os leitores do Logística Descomplicada aproveitam seus artigos para enriquecer seus conhecimentos, agregando informações às suas carreiras. Certamente as colaborações do Marcos são valiosas para nós e é um prazer tê-lo como articulista do site.

  • Márcio Silva

    A clareza com que o Sr. Marcos escreve seus artigos é algo que admiro muito. Muito legal esse texto também. Obrigado por compartilhar seus conhecimentos. Me junto ao Berti para aguardar outros artigos e agregar valor profissional para muitos leitores que, assim como eu considero algo impagável.

  • Berti

    Situação complicada essa vivida pelo nosso amigo Flavio Sampaio que motivou o Marcos a nos explicar as consequências causadas pela falta de controle de nossos estoques, ou melhor, falta de controle acompanhado de um bom software para acompanhar os números e indicadores que variam diariamente.

    Parabéns Marcos pelo artigo, eu como um apaixonado pela Logística, em especial na área de Armazenagem/Expedição, ficamos na espera de novos artigos.

    Até breve

  • Berti

    Estamos aí novamente de olho em seus textos Marcos, e mais uma vez você fez um filtro de como quão importante é essa área. O exemplo dos R$ 0,01 mostra como deve preservar e principalmente "controlar" cada parafuso que consta em nossos estoques. E a situação vivida pelo nosso amigo Flavio Sampaio, sobre controlar tudo na ponta do lápis, não deve ser uma tarefa fácil.

    Parabéns pelo artigo Marcos. Eu como um apaixonado por Logística, em especial pela área de Armazenagem/Expedição, ficamos no seu aguardo de novos textos.

    Até breve.

  • Muito ilustrativo o artigo retratando o poder dos números. Para quem ficou curioso (como eu) e foi fazer a conta sobre quanto o Marcos estaria ganhando no final do mês se começasse ganhando R$ 0,01 no primeiro dia e o valor fosse dobrado a cada dia: no dia 20 o valor já seria de mais de R$ 5200,00, somando um acumulado de R$ 10.485,75.

    No dia 30 o valor seria R$ 5.368.709,12 (mais de 5 milhões!) e o acumulado passa dos 10 bilhões. Faça a conta quem quiser!

    É a missão dos números!