Composição dos custos logísticos

Confiram na semana que vem um artigo sobre o Custo Brasil e as implicações logísticas.

Por Ivan Vey e Alceu Balbin:

Em um ambiente altamente competitivo e pressionado pela globalização, onde as empresas necessitam de uma maior eficiência e produtividade, a apuração dos custos nas organizações assume um papel relevante. Desta forma, reduzir custos sem perder a competitividade é uma meta que deve ser alcançada, assim, a empresa poderá obter vantagem competitiva.

Incluídos nos custos totais de uma empresa aparecem os custos logísticos. Porém, as empresas, com seus sistemas de custeio tradicional, acabam por se preocupar apenas com o custo dos produtos esquecendo dos custos relacionados a logísticas, os quais possuem um valor significativo nos custos totais das mesmas.

Corroborando com o que foi exposto, Kaplan & Cooper (2000, pág. 13) colocam que:

Muitas empresas, entretanto, não estão obtendo essas vantagens competitivas a partir dos sistemas de custeio aprimorados. Seus gerentes baseiam-se em informações provenientes de um sistema de custeio projetado para um era tecnológica mais simples, quando a competição não era global, com produtos e serviços padrão, não-personalizados, e quando rapidez, qualidade e desempenho eram menos essenciais para o sucesso.

Atualmente, os custos logísticos, dentro dos custos totais de uma organização, assumem uma posição relevante em termos de valores monetários. Ballou (2003, pág. 25) afirma que: “estimamos que os custos logísticos, que são substanciais para a maioria das empresas, percam somente para o custo das mercadorias vendidas”. O problema é que a maioria das empresas alocam todos os custos aos produtos, não havendo uma separação, antes desta alocação, em termos de atividades que fizeram parte do processo. Desta forma, identificá-los e mensurá-los de forma precisa torna-se vital para a sobrevivência das empresas.

Custos logísticos não se resumem apenas a transporte, apesar de se observar que o mesmo possui o maior impacto, existem vários custos que se podem relacionar: custo de armazenagem e movimentação, de embalagens, de manutenção de inventários, custos de tecnologia de informação, custos tributários, custos de setup, custos decorrentes de nível de serviços e custos de administração.

O Instituto dos Contadores Gerenciais – IMA (1992), traz o seguinte conceito: “Os custos logísticos, são os custos de planejar, implementar e controlar todo o inventário de entrada (inbound), em processo e de saída (outbound), desde o ponto de origem até o ponto de consumo”.

Desta forma, devem-se considerar os custos logísticos como aqueles que incorrem durante todo o fluxo de materiais e bens, o que engloba desde o ponto de fabricação até a entrega ao cliente. Como atualmente as empresas trabalham em cadeias, conhecendo seus custos logísticos estas podem estabelecer metas para reduzir e repassar os ganhos para uma cadeia como um todo. Assim, outras empresas que fazem parte da cadeia têm condições de absorverem novas práticas, reduzindo também seus custos logísticos, contribuindo desta forma para a competitividade da cadeia.

Os métodos tradicionais de apuração de custos preocupam-se em alocar os custos como um todo, de forma direta ou indiretamente, aos produtos, não se preocupando que na fabricação dos produtos muitas atividades estão envolvidas. A logística, dentro desta abordagem, possui diversas atividades, as quais irão compor o custo total dos produtos ou serviços.

Dentre os métodos de custeio existentes, encontra-se o custeio baseado em atividade (Activity Based Costing – ABC), o qual pode ser uma alternativa para a apuração dos custos logísticos. Para La londe e Pohlen apud Faria & Costa (2005), houve uma evolução do ABC como alternativa para se ter informações precisas de custos, o que gera informações mais acuradas, pois usa direcionadores múltiplos para atribuir custos com base no consumo, deixando de alocar os custos logísticos como um todo, para posteriormente alocá-los aos produtos.

Assim uma alternativa para apuração dos custos logísticos nas organizações seria a implantação de um sistema ABC. Para Bornia (2002, p. 121), “a idéia básica do ABC é tomar os custos das várias atividades da empresa e entender seu comportamento, encontrando bases que representem as relações entre os produtos e essas atividades”.  Assim, podem-se identificar quais os reais custos da atividade logística que contribuíram para a formação do resultado da empresa.

Em termos de Brasil, há um vazio referente aos custos logísticos. As informações existentes estão defasadas ou calculadas a partir de projeções e metodologias externas. Em 2006 o Centro de Estudos Logísticos publicou um artigo sobre os custos logísticos na economia brasileira, onde para Lima (2006, p.64):

A carência de informações sobre custos logísticos no Brasil torna freqüente a utilização de dados defasados. O grande problema é que esses dados não necessariamente representam a nossa atual realidade, tornando difícil, entre outras coisas, a comparação com outros países. Além de tudo, a falta de um histórico acaba inviabilizando a análise da evolução do nosso custo logístico.

O estudo identifica os principais custos logísticos relacionados a economia brasileira. A tabela a seguir destaca os principais resultados.

ITENS R$ Bruto % Total % PIB
Transporte

132,8

59,6% 7,5%
Armazenagem 11,7 5,3% 0,7%
Administração 8,5 3,8% 0,5%
Estoque 69,8 31,3% 4,0%
TOTAL 222,8 100,0% 12,6%
Fonte: Lima,2006

Destaque para o transporte que representa 59% do total dos custos e equivale a 7,5% do PIB. Dentro dessa conta destaca-se o consumo de óleo diesel que representa 1,8% do PIB e conseqüentemente o transporte rodoviário de cargas que representa 6,7% do PIB e o transporte rodoviário com veículos a diesel que representa 5,47% do PIB.

Outro fator importante é a relação entre o crescimento da economia e a demanda por transporte rodoviário. Essa relação é medida pela elasticidade da demanda de um bem em relação a outro. Neste caso o calculo visa identificar a relação entre o crescimento do PIB e o consumo de diesel. Entre 1970 e 1980 a elasticidade foi de 1,37, entre 1980 e 1990 foi de 1,27 e no período de 1990 à 2002 foi de 1,42 (Castro, 2004, p. 3).

Para elucidar a elasticidade pode-se utilizar o exemplo de Coutinho (2007, p. 24) onde ele explica a elasticidade da oferta. A elasticidade da oferta pode ser definida conforme a fórmula abaixo.

Elasticidade   = Variação na Oferta (%)

____________________

Variação no Preço (%)

Quando a elasticidade da oferta é maior que 1 diz-se que a oferta é elástica, quando é menor que 1 diz-se que a oferta é inelástica. Quando é igual a 1 diz-se que tem elasticidade unitária.

No estudo dos transportes foi utilizada a relação entre a variação no consumo de diesel e a variação da produção nacional. Nesse caso nota-se que a elasticidade é positiva e que para cada variação de 1% na renda têm-se uma variação de 1,42% no consumo de diesel.

Segundo o autor existem dois fatores que influenciam esse resultado. O primeiro é a dispersão geográfica da economia brasileira; o segundo é o aumento do comercio interestadual.

Por fim a necessidade de se estudar as características locais está na comparação entre estruturas internas e as de outros mercados a fim de identificar fatores de competitividade. Lima (2004) identifica que a economia Norte Americana apresenta custos unitários de transporte superiores ao da economia brasileira, entretanto o custo logístico Norte Americano representa 8,2% do PIB enquanto que o brasileiro 12,63%.

Como se pode perceber existe muita dificuldade em apurarem-se os custos logísticos tanto em termos de Brasil como nas empresas. Desta forma, devem-se procurar alternativas para que se possa levantar com mais precisão o impacto dos custos logísticos nas empresas e na economia brasileira.

Uma alternativa seria a implantação nas empresas do sistema ABC, no qual se poderá identificar todas as atividades relacionadas com os custos logísticos e ter um valor mais acurado em termos monetários. Isto contribuirá para o levantamento dos custos logísticos nas empresas, as quais terão dados mais precisos para tomada de decisão. Por outro lado, ter-se-á informações concretas e atualizadas para analisar com mais precisão seus impactos na economia brasileira.

Bibliografia Consultada
 
BALLOU, Ronald H. Gerenciamento da cadeia de suprimentos. 4. Ed. Porto Alegre: Bookmann, 2001.
Banco Central do Brasil - BCB. Séries Temporais. Disponível em: <https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?method=prepararTelaLocalizarSeries>. Acesso em: 22 março 2007.
BORNIA, Antonio Cezar. Análise Gerencial de Custos. 1. Ed. Porto Alegre: Bookmann, 2002.
Castro, N.R.. Logistic Costs and Brazilian Regional Development. The World Bank. Aug, 2004.
FARIA, Ana Cristina de; COSTA, Maria de Fátima Gameiro da. Gestão de Custos Logísticos. 1. ed. São Paulo: Atlas, 2005.
IBGE. Anuário estatístico do Brasil.  2005 v.65
INSTITUTO DE MOVIMENTAÇÃO E ARMAZENAGEM DE MATERIAIS (IMAM) São Paulo. 2003. Disponível em: <http://www.imam.com.br/logistica/arquivos/PDF_PESQUISAS/LOGISTICA2003.PDF >. Acesso em: 21 março 2007.
______.São Paulo. 2005. Disponível em: <http://www.imam.com.br/logistica/arquivos/PDF_PESQUISAS/APRESENTACAO.PDF>.  Acesso em: 21 março 2007.
INSTITUTO DOS CONTADORES GERENCIAIS (IMA). Cost Management for Logistics. [S.I.]: National Association Of Accountants. Statements on Management Accounting. 4-P, june 1992.
KAPLAN, Robert; COOPER, Robin. Custo e Desempenho. 2. ed. São Paulo: Futura, 2000.
LIMA, Maurício Pimenta. Custos Logísticos na Economia Brasileira. Revista Tecnologística, São Paulo, ano XI, 2006. Disponível em: <http://www.centrodelogistica.com.br/new/art_custos_logisticos_economia_brasileira.pdf>. Acesso em: 21 março 2007.
NAKAGAWA, Masayuki. ABC: custeio baseado em atividades. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2001.
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Leandro C. Coelho, Ph.D., é Professor de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos na Université Laval, Québec, Canadá. Conheça mais no menu Sobre (acima).