Confiança na Cadeia de Suprimentos

Por Ivan H. Vey e Alceu B. Junior

confiança negóciosBusca-se nesse texto avaliar a importância da confiança entre os atores da cadeia de suprimentos e a relação existente entre a confiabilidade da Cadeia e os riscos a que ela está exposta. Em primeiro lugar faz-se o levantamento dos riscos existentes, em seguida avaliam-se questões relacionadas a confiança e por fim faz-se a relação entre riscos e confiança dentro da Cadeia de Suprimentos.

O oportunismo é um risco eminente em todos os ramos de negócio, geralmente um player com visão de curto prazo e que deseja retornos imediatos acaba utilizando desse artifício. Williamson (1985: 30) define como “condição da busca de auto-interesse com astúcia” o que resume comportamento como mentir, roubar, lograr, formas sutis de enganar, revelar informação de forma distorcida ou incompleta, ofuscar, confundir, etc. “Uma das implicações do oportunismo é que os modos de cooperação ideais da organização econômica são muito frágeis e por isso são invadidas e exploradas por agentes que possuem estas qualidades”.

Chopra e Sodhi (2005) definem os principais riscos de quebra na cadeia de suprimentos. As quebras reduzem a capacidade de manter o nível de serviço da cadeia e as soluções muitas vezes acabam expondo a cadeia a novos riscos. A seguir os principais identificados pelos autores:
Interrupções – estão relacionadas a fornecimento de produtos (atendimento a clientes) e linha de produção. Podem ser causadas por falha na entrega, quebras de fornecedores entre outras;

  • Atrasos – são semelhantes ao anterior, entretanto não há cessão do fornecimento, mas apenas a necessidade de adiar a data ou horário de entrega;
  • Sistemas – estão relacionados a quebras de sistemas que deixam a empresa fora de operação durante horas ou dias;
  • previsão – quando são erradas geram prejuízos por falta, quando inverso elevam os custos dos estoques e inventários;
  • Propriedade intelectual – esse tipo de risco vem aumentado com a globalização das cadeias de suprimento. Nesses casos as empresas perdem competitividade no mercado;
  • Compras – Geram problemas de custos, devido variações cambiais, reajuste de preço, qualidade no fornecimento e outras;
  • Recebíveis – são os famosos problemas de “calote” ou inadimplência. Criam furos no fluxo de caixa ameaçando a solvência da empresa;
  • Estoques – Os estoque geram problemas tanto quando há excesso quanto na falta. No primeiro caso há riscos de obsolescência e custos de manutenção, no segundo incapacidade de atender variações elevadas da demanda;
  • Capacidade de produção – está diretamente relacionada à flexibilidade da empresa. Elas devem decidir entre manter capacidade ociosa para atender a demanda, calculando os custos de manutenção, depreciação e oportunidade desse capital.

Os riscos que a Cadeia de Suprimentos estão expostas vão interferir diretamente na capacidade de atendimento, ou seja, no nível de serviço. Por conseqüência esses geram efeitos nos resultados financeiros, na flexibilidade, capacidade de atender novos mercados entre outros. Os autores sugerem algumas estratégias para minimizar os riscos, condensadas na tabela a seguir:

Riscos Estratégias para Minimizar
Interrupções Agregar estoques ou ampliar número de fornecedores
Atrasos Agregar estoques; aumentar capacidade de respostas; Aumentar flexibilidade; aumentar capacidade de produção.
Previsão Aumentar capacidade de resposta; reunir ou agrupar demanda.
Compras Aumentar estoques; superabundância de fornecedores; aumentar flexibilidade.
Recebíveis Aumentar quantidade de clientes
Capacidade Aumentar a flexibilidade; reunir ou agrupar demanda; agregar estoques.
Excesso de estoques Agregar capacidade; abundância de fornecedores; aumentar capacidade de resposta; aumentar flexibilidade; Reunir ou agrupar demanda; aumentar capacidade de produção.

Tabela 1: Estratégias para minimizar Riscos

Fonte: Adaptado de Chopra e Sodhi (2005)

Como visto acima algumas medidas para reduzis alguns riscos acabam por aumentando outros. Como é o caso do risco de interrupções que tem como solução possível o aumento dos estoques. Entretanto essa solução pode causar problemas financeiros para o caixa da empresa. Como alternativa para a redução da maioria dos riscos existentes na Cadeia de suprimentos tem-se a elevação da confiabilidade nos elos e atores da cadeia.

A confiança é definida por Williamson (1996, capítulo 10) em três esferas:

  • confiança calculadora – “confia” apenas para obter vantagens econômicas ou para continuar tendo acesso a essas vantagens, na realidade não confia na outra pessoa, senão no funcionamento das salvaguardas do contrato.
  • confiança pessoal – confiança pessoal entre os parceiros
  • confiança nas instituições – é relacionado com o ambiente institucional, com a capacidade de atender as demandas e cumprir com suas responsabilidades.

Confiança está relacionada à performance e aos custos totais da Cadeia de Suprimentos. O impacto dos custos está bastante relacionado aos níveis de estoques e a performance é diminuída pela falta de informação e visibilidade gerando um ambiente de elevado risco para a tomada de decisão.

Chistopher e Lee (2001) descrevem situações em que os setores responsáveis pelas vendas executam ordens de produção sem ter o conhecimento real da demanda. Nesses casos eles estão se adiantando ao mercado, pois não confiam na capacidade de atender pedidos da cadeia. De outra forma, têm certeza que os pedidos sofrerão atrasos na entrega e, portanto, o fazem antecipadamente.

Muitas vezes devido essa desconfiança os elos da cadeia começam a fazer estoques intermediários cada vez maiores, gerando ineficiências e elevando os custos.

Quanto mais os participantes da cadeia desconfiam de seus parceiros, mais eles tendem a se proteger, criam ineficiências e elevam os riscos. No final acabam materializando suas preocupações.

Os autores sugerem dois pontos principais para a recuperação da confiança na cadeia, Visibilidade e Controle.

A visibilidade se faz pelo desenvolvimento de ferramentas para ampliar a circulação de informações dentro da cadeia.  O compartilhamento de informação entre os membros-chave da cadeia provê uma visibilidade adequada, o que permite que esses membros tomem boas decisões capazes de melhorar a lucratividade de toda a cadeia (Simatupang e Sridharan, 2001). Para Lee e Whang (2000) e Sawaya (2002) o compartilhamento de informação é um importante requerimento para o sucesso da SCM, sendo este compartilhamento a base para coordenação entre os membros-chave de uma cadeia de suprimento.

O controle sobre os elos da cadeia se dá através do desenvolvimento de indicadores de desempenho e de sistemas capazes de identificar problemas e informar com agilidade o responsável pela resolução do mesmo.  Segundo Durski (2001) a necessidade de indicadores estão relacionados a:

a) a necessidade de identificar e estabelecer indicadores para cada fator condicionante da competitividade;

b) a necessidade do acompanhamento global, o que não implica a condição de desconhecer a performance de cada um dos elos, que no conjunto são determinantes da competitividade da cadeia;

c) a necessidade de um modelo de indicadores que sejam passíveis de comparação.

Tendo conhecimento total sobre o ciclo do pedido a ponta da cadeia pode planejar melhor sua venda e com isso reduzir seus estoques intermediários e os riscos relacionados à custos de obsolescência e inventários. De forma inversa, os responsáveis pelo fornecimento de matérias primas podem conhecer com antecedência a demanda e planejar sua produção e variações na capacidade produtiva, reduzindo dessa forma os riscos da tomada de decisão.

Bibliografia
CHRISTOPHER, Martin; LEE, hau I.. Supply Chain Confidence: The Key to Effective Supply Chains Through Improved Visibility and Reliability. 2001.
CHOPRA, Sunil; SODHI, Manmohan. Como evitar Quebras. 2005.
Firmo, Ana Carolina Cardoso; Lima; Renato da Silva. Gerenciamento da cadeia de suprimentos no setor automobilístico: iniciativas e práticas. XI SIMPEP,  2004.
Aragão; Andréa Barcellos de; Scavarda, Luiz Felipe; Hamacher; Sílvio. Modelo de Análise de Cadeias de Suprimentos: Fundamentos e aplicação às Cadeias de Cilindros de GNV. Revista Gestão e Produção 2004.
Durski, Gislene Regina. Avaliação do desempenho em cadeias de suprimentos. Revista FAE, 2003.
Boehe, Dirk Michael; Balestro, Moisés Vilamil. A dimensão nacional dos custos de transação: oportunismo e confiança institucional. READ, 2006.
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Leandro C. Coelho, Ph.D., é Professor de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos na Université Laval, Québec, Canadá. Conheça mais no menu Sobre (acima).

  • pedro

    Bom eu caregei uma carga pra londrina a trasportadora rota e eles estam me devendo o frete e nao querem me paga

  • MARLY FERREIRA

    Estava mesmo precisando mim aprofundar mais na cadeia de suprimentos, deixou-me mais confiante no assunto,maravilhoso,valeu!