Desperdício de dinheiro no setor logístico

Desperdício de dinheiro no setor logístico

O Brasil parece não aprender a lição. Estamos diante de um cenário crítico no que se refere a investimentos em infraestrutura de transportes. Meu Deus! A maioria de nós sabe da importância desses investimentos para o crescimento do Brasil e para a dignidade e qualidade de vida dos brasileiros, mas aquela minoria que detém o poder e o usa em favorecimento da corrupção para, com ela, mudar sua própria vida, vem ignorando até o dinheiro – aquele dinheiro que os Tribunais de Contas exercem fiscalização ferrenha e não dão tantas chances para aquelas “embolsadinhas” básicas.

investimento pelo raloEm 2013, quando mais precisávamos desses investimentos, não só pela Copa do Mundo, mas pelo nosso passado de poucos caraminguás destinados à manutenção e implantações de rodovias – embora eu acredite que os investimentos em modais que diminuam o custo do frete sejam tão importantes quanto rodovias que, hoje, são o passado de muitos países que desenvolveram suas ferrovias e hidrovias para competir no mercado global – o que se investiu foi muito aquém da necessidade do país. O ano foi marcado pelo efeito daquelas denúncias, prisões, demissões e afastamentos, em 2012, de funcionários do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), inclusive da Superintendência, e de algumas empreiteiras acusadas de associação à corrupção. Com isso, o Tribunal de contas da União (TCU) e o Ministério Público Federal (MPF) ficaram de olho nos custos das obras espalhadas pelo país diminuindo as possibilidades de desvios e, assim, o interesse pela realização dos projetos – até os já licitados.

Fácil entender, difícil aceitar que um país que sofre tanto com a deficiência logística possa desperdiçar tempo e dinheiro que beneficiaria a economia por não ter uma fiscalização eficiente e, quando feita, vem travar e arrastar os processos por um longo período além do necessário. Aliás, é mesmo complicado que o Órgão que devia fiscalizar compartilhe da mesma corrupção que deveria combater.

A verdade é que não foi utilizada NEM A METADE do orçamento destinado às obras de rodovias em 2013; e mais: em 2012 foram utilizados quase 700 milhões a mais do que 2013 cujo orçamento aprovado seria praticamente o dobro de 2012. Veja os números, segundo dados do Sistema Integrado de Administração Financeira do Governo Federal (SIAFI):

– 2012: Mais de R$ 7 bilhões foram utilizados.

– 2013: R$ 13,2 bilhões aprovados pelo Congresso Nacional. Apenas R$ 6,3 bilhões foram utilizados até o início de novembro (48% do orçado para o ano).

A maior obra de 2013 seria na BR 101, na divisa de Santa Catarina com Rio Grande do Sul, cujo orçamento autorizado foi de R$ 423,5 milhões, mas só R$ 89,9 milhões foram pagos efetivamente. Outro trecho na BR 116, Porto Alegre/Pelotas, de R$ 363 milhões foram utilizados apenas R$ 66,5 milhões. O próprio DNIT que previa um investimento de R$ 252,4 milhões para estudos, projetos e planejamento de infraestrutura de transportes, dinheiro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), só utilizou pouco mais de R$ 37 milhões. Ainda assim, planejamento muito caro para tão pouca eficiência […].

Para piorar, algumas obras em andamento serão pagas com o orçamento de 2014. Os chamados “valores empenhados” que serão feitos neste ano, por obras iniciadas em 2013, serão pagos com recursos previstos para 2014, pois os orçamentos não são cumulativos.

O governo disse: – Taí o dinheiro! As empreiteiras disseram: – Oba! Os Tribunais de Contas disseram: – Estamos de olho! O DNIT disse: – “Sujou!” E a Logística ficou como aquele milionário que morreu no deserto com o bolso cheio de dinheiro para comprar água.

Esgotaram assim, as desculpas dos órgãos “responsáveis” pela infraestrutura do país: falta de tempo, clima (com cheias e secas), reviradas políticas… Mas, a mais utilizada, sem dúvidas, sempre foi a falta de dinheiro. E agora, o que falta-nos ouvir em meio ao descaso com que é tratado o setor logístico no Brasil?

Gostou dessa matéria? Doe qualquer valor e ajude a manter o Logística Descomplicada gratuito:

Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.

  • Diego Moraes

    Marcos Costa,
    Parabéns pelo texto, muito bem explicado.

  • Ronaldo

    Sinto falta de uma matéria de conteúdo logístico nesse site. Todas voltadas para choradeira. Aí você escolhe ou compra lenço ou os fabrica!

    • Marcos Costa

      Prezado Ronaldo,
      Se faz necessário rever seus conceitos sobre logística. Caso queira matérias voltadas a conceitos, transporte, armazenagem, distribuição, operações de uma forma geral… Você pode encontrar em posts anteriores (continuam atualizadas). Caso queira mergulhar na logística mesmo, você precisa estar bem atualizado. E isso significa estar antenado em muitos mercados que influenciam o preço do combustível, a taxa cambial, as legislações, quadros políticos… Se estradas não pertencem ao mundo logístico e, nesse caso, a falta delas não influem numa logística estratégica e operacional… Como eu disse, você precisa entender melhor o conceito da cadeia logística.
      O que você chama de “choradeira” nós tratamos como informações. O que você chama de “lenços” nós transformamos em tomadas de decisões baseadas nas informações, ou na choradeira, como queira.
      Saúde e sucesso pra você.

  • Emerson Dias

    Infelizmente no Brasil é assim, acontece todos sabem e ninguém faz nada; Nem adianta mais ir as ruas só causa impacto na imprensa que ganha uma matéria a mais para aprensentar.

  • Fernando Cerqueira

    GENTEEEEEEEEEEEE!!! VAMOS ACORDAR!!! O QUE DESTRÓI ESTE PAÍS É A IMPUNIDADE!!! CADEIA NESSES CORRUPTOS!!!

  • Raimundo Lapa

    Infelizmente essa é a nossa realidade. Mudam os políticos, os governantes e a corrente política. O que não muda, e nisso os políticos de todas as ideologias compactuam, é o tamanho da influência do governo na coisa privada. É a “mão invisível” do governo, mais viva do que nunca em nosso modelo político-econômico vigente. Não acredito em um modelo de desenvolvimento onde o público e o privado se misturam de uma forma, no mínimo, anti-ética.
    Enquanto isso, nosso modais acumulam um deficit estrutural abissal, se comparado a outros países, mesmo os no mesmo nível do Brasil.
    Já não acreditamos no chamado “milagre econômico”, bandeira dos governos militares do passado, mas não podemos deixar de esperar por uma guinada no atual cenário, que deve, obrigatoriamente, passar pela reestruturação completa na definição dos investimentos necessários a melhoria da logística nacional. Essa mudança deve contemplar investimentos dimensionados pelos profissionais da área, permitindo que a iniciativa privada execute seus projetos da forma correta, sem o efeito governo.
    Quem sabe um dia?
    Abraços

    • Marcos Costa

      Prezado Raimundo Lapa,
      Muito bem colocadas as suas palavras. Realmente o cenário não é dos melhores e não se ver, em curto prazo, algo que possa reverter. Eu diria que tudo é questão de foco: apesar dos governos prometerem obras necessárias, se essas não os interessar, não é prioridade. Quanto ao privado, se não houver um ganho bem além do mercado ou que abra portas para isso, também não o interessa.
      Estamos tão mergulhados em corrupção que já estamos perdendo a ideia do quanto nos é prejudicial. Esse é o maior perigo.
      Saúde e sucesso!

    • paulo gomes

      Está o Brasil carente mais é de empresas e ou empresários arrojados , visionários e estudiosos de projetos sérios,e ao mesmo tempo observadores mundo afora…
      Em alguns países europeus privatização de estradas pressupõe-se a construção de uma “nova” auto-estrada totalmente privada “paralela” à já existente, que segue pública e gratuíta e continúa intacta . Cabendo aos governos apenas avalizar tais empresas junto aos bancos e instituições financeiras que viabilizarão tal “empreendimento”, e as populações continuam tendo sua alternativas grátis de livre circulação e pública.
      Acredito sim no “milagre economico” mas feito da verdadeira e livre “iniciativa privada”,e não em privatizações maquiadas onde “empresas apenas querem adquirir por quase nada a pouca e ruim infraestrutura que o estado conseguiu fazer.
      Arrojem empresários,façam algo de verdadeiro, construam , criem, mostrem para que vieram…

  • Luiz Carlos da silva

    Os nossos governantes tem preguiça de investir em infraestrututra logistica, e gastam dinheiro publico com obras faraonicas!Assim não dá!