Formulação de estratégias para a sustentabilidade dos transportes

Texto de autoria de Letícia Dexheimer, Cláudio Müller e Luís Antônio Lindau, apresentado no XXII Congresso de Pesquisa e Ensino em transportes (ANPET), 2008.

Formulação de estratégias para a sustentabilidade corporativa: uma abordagem para o transporte de cargas

A sustentabilidade corporativa trata do compromisso empresarial para com o desenvolvimento sustentável. Em organizações sustentáveis o cuidado com o meio ambiente e o bem estar das partes interessadas devem fazer parte da estratégia básica de negócios da empresa de modo a proporcionar a constante melhoria da sua própria reputação. No caso da atividade de transporte de cargas problemas como poluição do ar, poluição sonora, congestionamentos e acidentes causam impactos negativos na vida das pessoas. Este artigo tem como principal objetivo propor diretrizes para a formulação de estratégias sustentáveis para empresas de transporte rodoviário de cargas, e assim, reduzir os impactos negativos dessa atividade na qualidade de vida e garantir a permanência do negócio a longo prazo.  Foi realizada uma revisão teórica sobre a formulação de estratégias nas empresas e a busca pela sustentabilidade corporativa. Baseado nessa revisão, é apresentada uma proposta de como conduzir a empresa de forma sustentável.

1. INTRODUÇÃO
Bernardes e Ferreira (2003) lembram que durante o século XIX se achava que a natureza seria uma fonte ilimitada de recursos à disposição do homem. Com base nesta concepção, desenvolveram-se práticas de exploração intensa dos recursos naturais, com efeitos danosos para a natureza e para os homens. Achava-se que o crescimento econômico não teria limites e que o desenvolvimento significaria dominar a natureza e os homens. Durante as décadas de 50 e 60 do século passado o termo desenvolvimento foi associado com crescimento econômico e industrialização, mas ainda nesta época não eram considerados os danos ambientais deles advindos (Fogliatti et al, 2004).

A fragilidade e vulnerabilidade dos ecossistemas foram percebidas pelos países desenvolvidos diante de grandes acidentes ambientais que marcaram as décadas seguintes como o da Baía de Minamata no Japão, o acidente do Bhopal na Índia e o acidente na Usina Nuclear de Chernobyl, na extinta União Soviética, o vazamento de petróleo da EXXon Valdez no Alasca, entre outros (Fogliatti  et al, 2004; Jappur, 2004). Estes fatos provocaram significativas mudanças nas visões de empresas e pessoas e iniciaram um processo de conscientização de que as questões ambientais eram  importantes no processo de desenvolvimento e que o planeta não suportaria os impactos ambientais gerados pela velocidade com que isso acontecia podendo levar à exaustão dos recursos naturais.  Sentiu-se então a necessidade de buscar caminhos alternativos para o crescimento. Esta busca foi marcada por grandes eventos com a participação de representantes de diversos países os quais firmaram o compromisso de promover o desenvolvimento sustentável, cujo principal objetivo é garantir a qualidade de vida para as gerações futuras, sem a destruição do meio ambiente, com crescimento econômico e equidade social. Inicialmente, estes princípios eram vistos, por grande parte dos empresários, como conflitantes perante a busca por resultados financeiros imediatos, aumento de fatias de mercado e competitividade.

Porém, da década de 90 até os dias de hoje, esta realidade mudou, a preocupação dos investidores, dos governantes e dos consumidores com questões relativas à sustentabilidade aumentou consideravelmente.  As empresas começaram a perceber que uma organização faz parte de um todo e que deve ser sustentável para poder evoluir. Os consumidores, por sua vez, estão cada vez mais cientes do seu poder de transformação social e começam a demandar mais responsabilidade das empresas no que se refere às questões sociais e ambientais. Assim, surge a sustentabilidade corporativa que trata do compromisso empresarial para com o desenvolvimento sustentável, ou seja, uma forma de  conduzir as atividades empresariais pensando ‘nas pessoas, nos lucros e no planeta’ (SustainAbility, IFC, Instituto Ethos, 2003).

Muitas empresas, de diversos setores da economia, estão atentas às novas tendências do mercado e buscando meios de alcançar a sustentabilidade. Sendo a atividade de transporte de cargas fundamental para o desenvolvimento econômico de uma região, as empresas deste setor também devem se preparar para esta nova realidade. O transporte de cargas vem crescendo ao longo dos anos devido ao aumento do volume e da variedade de bens produzidos
e consumidos pela sociedade.  A atividade de transporte está diretamente ligada ao crescimento econômico dos centros urbanos. Entretanto, é realizada por caminhões, movidos a diesel, cuja queima, segundo Kahn Ribeiro et al (2007),  provoca boa parte das emissões de derivados do carbono lançadas na atmosfera produzindo altos níveis de poluição do ar, muito prejudiciais à saúde humana. Por serem grandes e lentos, eles ainda favorecem os
congestionamentos, provocam um aumento no nível de  ruídos e favorecem acidentes com veículos menores (VTPI, 2007).

Além do impacto na qualidade de vida da população diretamente afetada, altos níveis de emissões contribuem para um problema maior que é o aquecimento global. No final dos anos 60, alguns pesquisadores começaram a perceber uma intensificação do efeito estufa. Eles alertaram para o fato de que as enormes emissões de dióxido de carbono (CO2), além de outros gases, estavam contribuindo para o aumento da camada natural de gases na atmosfera impedindo que o calor se dissipasse. Como a concentração dos gases vem aumentando nessa camada, a quantidade de calor que fica retida também cresce, o que acarreta a elevação da temperatura do planeta.

As mudanças climáticas decorrentes deste processo são hoje uma preocupação de todos, sociedade, governo e empresas que estão em busca de soluções alternativas para o desenvolvimento da sociedade sem a exaustão dos recursos naturais.

Este artigo tem como principal objetivo propor diretrizes para a formulação de estratégias sustentáveis para empresas de transporte rodoviário de cargas. Com isso pretende-se contribuir para que o conceito de sustentabilidade  corporativa seja inserido no núcleo estratégico das empresas de transporte rodoviário de cargas de modo reduzir os impactos negativos desta atividade na qualidade de vida das  pessoas e garantir a permanência do negócio a partir de práticas sustentáveis.

Na seqüência, é realizada uma revisão sobre sustentabilidade corporativa e o processo de formulação de estratégias justificando sua importância na busca por maior competitividade pelas empresas. O artigo é concluído com uma abordagem teórica sobre o tema aplicada a empresas de transporte de cargas.

2. SUSTENTABILIDADE CORPORATIVA
A sustentabilidade corporativa trata do compromisso empresarial para com o desenvolvimento sustentável. Ter sustentabilidade significa assegurar o sucesso do negócio a longo prazo e ao mesmo tempo contribuir para o desenvolvimento econômico e social da comunidade, um meio ambiente saudável e uma sociedade estável, ou seja, encontrar um equilíbrio entre as dimensões econômica, ambiental  e social (SustainAbility, IFC, Instituto Ethos, 2003).  Em uma organização sustentável o cuidado com o meio ambiente e o bem estar das partes interessadas devem fazer parte da estratégia básica de negócios da empresa de modo a proporcionar a constante melhoria da sua própria reputação.

O conceito prevê que a empresa contribua para fins  sociais e ambientais enquanto investimento estratégico, no núcleo da estratégia do negócio, nos seus instrumentos de gestão e nas suas operações. Uma tarefa difícil já que as empresas têm dificuldades em criar valor a partir de temas que não estejam diretamente ligado  à sua operação, e gerando segundo Greyson e Hodges (2004) apud Boechat e Paro (2007)  uma proliferação de iniciativas e projetos que representem um desvio do propósito primordial da empresa, ações periféricas que geram custo e acabam se tornando um “entrave ao desempenho”. Assim, a sustentabilidade e a estratégia corporativa raramente convergem.

Segundo Boechat e Paro, 2007 o conjunto de responsabilidades de uma empresa constitui-se nas relações que ela estabelece com sistema ao qual ela pertence e interage constantemente e, para promover a sustentabilidade, essas responsabilidades exigem uma visão de longo prazo alinhadas às visões e expectativas dos  stakeholders (ou partes interessadas, setor público, sociedade civil, etc). A inexistência desta articulação mantém as iniciativas empresariais com caráter predominantemente periférico.

Empresas que contribuem para o desenvolvimento sustentável têm maior acesso ao capital. O BNDES por exemplo, considera formalmente a variável ambiental em seus procedimentos de análise e concessão de crédito.  Além disso, investidores, em nível mundial, têm procurado empresas socialmente responsáveis, sustentáveis e rentáveis para aplicar seus recursos. Tais aplicações, denominadas “investimentos socialmente  responsáveis” (“SRI”), consideram que empresas com estas características geram valor para o acionista no longo prazo, pois estão mais preparadas para enfrentar riscos econômicos, sociais e ambientais.

Estes fatos têm proporcionado a algumas empresas a identificação de novas de oportunidades de negócios com ênfase na transformação real do seu papel na sociedade.

Para estabelecer uma relação das empresas com as melhores práticas de desenvolvimento sustentável e estimular a competitividade foi lançado, em 1999, na bolsa de valores de Nova Iorque o Índice Dow Jones de Sustentabilidade. Esta relação incentiva outras empresas a modificarem os seus sistemas produtivos de modo a alcançar um desempenho superior. Esse modelo influenciou a criação de índices de sustentabilidade nas bolsas de valores de Londres, Johannesburgo e São Paulo. Este último é chamado de ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial, teve início em 2004 na BOVESPA e passou a ser referência para as empresas brasileiras. O objetivo do índice é criar uma cultura de boas práticas a partir da comparação, pois fazer parte deste grupo causa um impacto positivo perante a comunidade e aumenta a reputação da empresa sobre os concorrentes.

A busca pela sustentabilidade corporativa apresenta para as empresas uma nova forma de encontrar uma vantagem competitiva sustentável, aumentando a competitividade e agregando valor à organização a partir da melhoria de sua imagem, sendo transparentes com os stakeholders e investindo em projetos sociais e ambientais (Campos et al, 2007).

A legislação ambiental influencia diretamente a competitividade, pois a adequação empresarial à regulamentação ambiental inicialmente agregava custos que podem ser minimizados ou eliminados de acordo com inovações que forneçam benefícios competitivos para a empresa, de modo que a organização se utilize de matérias-primas, materiais e, energia de forma mais eficiente.

Prevenir a poluição significa benefício à empresa  em termos de produtividade, pois uma menor quantidade de recursos será desperdiçada, aumentando a produtividade e diminuindo custos, oferecendo uma vantagem competitiva. Assim, as melhorias ambientais caracterizam uma estratégia empresarial que aumenta a competitividade (Porter e Linde, 1995 apud Campos et al, 2007).

Além das melhorias socioambientais trazerem benefícios para a empresa com a redução de custos, proporcionam melhorias para os trabalhadores que exercem suas atividades com maior segurança e para a população do entorno do empreendimento que passa a ter uma melhor qualidade de vida (Lemos e Nascimento, 1998 apud Campos et  al, 2007) o que naturalmente promove a competitividade empresarial.

Diferentes razões levam as empresas a se envolver cada vez mais com a problemática da sustentabilidade seja mantendo a competitividade empresarial ou contribuindo para os objetivos do desenvolvimento sustentável. Ambos podem levar a empresa a um só caminho, no qual seriam convergentes, a busca de metas ambientais e competitivas. No entanto, algumas empresas encontram dificuldades quanto ao entendimento e as metas do que seria realmente relevante e central para a promoção da sustentabilidade. Além disso, fatores como posição competitiva da empresa em seu setor e cadeia produtiva, relacionamento com governo e sociedade, capacidade interna de inovação e formação dos quadros profissionais, dentre outros, impactam decisivamente o sentido e os resultados da sustentabilidade alcançados pela empresa.

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Leandro C. Coelho, Ph.D., é Professor de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos na Université Laval, Québec, Canadá. Conheça mais no menu Sobre (acima).