Malha rodoviária: carência e prejuízos incalculáveis

Malha rodoviária: carência e prejuízos incalculáveis

Fui impulsionado pelo colega Leandro Callegari Coelho que, com um serviço inestimável prestado à sociedade através do “Logística Descomplicada” – um apoio consistente àqueles que se encantam pela área de logística e aos que buscam diversos espaços no mercado – a escrever sobre seu artigo Pesquisa confirma: malha rodoviária tem péssima qualidade (não deixe de ler para contextualizarmos o que segue).

rodovia buraco brasil - falta de investimentosRealmente são números absurdos. Posso falar com propriedade sobre esse assunto, pois uma de minhas incumbências é sobre a demanda de produtos asfálticos. Percorro rodovias federais, estaduais e municipais no Nordeste do Brasil. O tom é o mesmo em todas as regiões brasileiras, umas mais graves que outras.

Esses números já são espantosos, mas na verdade, são bem piores se as questões técnicas fossem consideradas. A maioria dos brasileiros é leiga no assunto e acha que um asfalto espesso ou “tapetinho” representa uma boa qualidade. Aí estão vários pontos envolvidos: Se essa pesquisa for feita nos próximos três meses, já vai encontrar uma significativa mudança no aspecto visual. Em muitas rodovias até se aplica uma massa asfáltica de boa qualidade, mas não é feita uma boa drenagem para preservar a base que é a parte mais importante de uma boa rodovia. Como já dito em artigo anterior, a finalidade do asfalto é impermeabilizar a base e proporcionar mais conforto e segurança aos usuários. Para isso, dentre outros pontos, ele deve ter uma boa recuperação elástica ou o calor do dia e o frio da noite lhe causará trincas e consequentes infiltrações. Precisa de uma usinagem com agregados (brita, areia, pó) adequados e de boa qualidade para não comprometer sua durabilidade.

As concessionárias que detém direitos sobre rodovias usam, em sua maioria, o asfalto com polímero (também extraído do petróleo) e com aditivos adequados, explicando assim, faixas de rodagem com maior qualidade e durabilidade. Essas obras duram até três vezes mais do que um asfalto comum de boa qualidade e sua manutenção não exige grandes reparos. A questão é que se trata de um produto mais caro (em torno de 50%), contudo, seu retorno é significativo com uma economia de manutenção de mais de 70% ao ano considerando o tempo mínimo de oito anos. Seu automóvel agradece.

Infelizmente, o poder público opta por trabalhar com projetos de qualidade inferior para que a população sempre perceba obras que enaltecem determinados “politiqueiros” que, até deixarem o poder ou possam se reeleger, já desmanchou tudo. É a percepção errada de que máquinas trabalhando sempre significam um bom governo. Na verdade, na maioria das vezes, significa despreparo e corrupção. A cada quilômetro de rodovia construída, poderíamos construir mais mil e duzentos metros com boa qualidade e com o mesmo orçamento.

Em muitas obras, a fiscalização exige de algumas empreiteiras aquilo que não está no projeto licitado e faz vistas grossas para outras quanto ao uso de materiais e serviços de qualidade. Você acha que há um nivelamento pelo menor ou pelo maior preço?

Vale lembrar também que esse levantamento não contempla as implantações necessárias, pois no Brasil, menos de 12% da malha necessária é asfaltada. Isso leva nosso País às carências de infra-estrutura imensuráveis e prejuízos incalculáveis. Como se desenvolver sem fazer o básico?

A corrupção nessa área aumenta de forma vergonhosa. Antes havia corrupção (sempre existiu), mas as obras saiam do papel. Com o passar dos tempos, a proporção do “um prá eu, um prá tu, um prá eu” – Que me desculpe pelo uso da poesia de Luiz Gonzaga – vem crescendo ao ponto de pagarmos por uma obra superfaturada inexistente.

O Brasil precisa mudar esse quadro. Muito do desenvolvimento não ocorreu devido essas “farras” com o dinheiro público. O que se gasta na malha rodoviária é o suficiente para nos dar estradas de boa qualidade e desenvolver alternativas como as ferrovias e portos melhores. Basta o uso honesto e inteligente do dinheiro público. Talvez eu queira demais […] ou já saiba o que não quero. Não quero me privar de uma melhor qualidade de vida, nem ver vidas ceifadas diante de tanta irresponsabilidade.

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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.

  • Flávio Cavalc

    Boa matéria e parabéns pelo artigo Marcos! Infelizmente a corrupção está aumentando a cada dia, enquanto o governo não fizer, pelo menos alguma coisa para amenizar essa situação, o negócio só tende a piorar.

  • Bruno Macedo

    Beleza de artigo! Brasileiro precisa se inteirar mais das coisas. Sempre bom conhecer um pouco mais daquilo que não percebemos no dia a dia.

  • Isabella Santos

    Sr.Marcos,

    Sua abordagem sobre o tema é muito importante e de fácil entendimento.Com a sua experiência sobre o problema das estradas do Brasil pergunto:
    O asfalto ecológico está sendo usado na pavimentação de trechos de estradas brasileiras e pesquisas comprovam sua eficácia,durabilidade e custo razoável.
    O asfalto ecológico seria uma alternativa viável para a pavimentação das rodovias brasileiras?

    • Marcos Aurélio da Costa

      Prezada Isabella,
      Obrigado por seu contato e por prestigiar nossos artigos.
      Na verdade, a idéia do asfalto ecológico – em evidência o asfalto-borracha – surgiu antes de sermos “bombardeados” pela palavra “reciclagem” que, cada vez mais, vem se associando mais ao lado financeiro do que ao interesse pela preservação do Planeta. Se conseguíssemos harmonizar os dois lados estaríamos alcançando seu propósito, mas hoje, não só no Brasil, se um certo processo não se dota de um lucro razoável […] sua política ambiental é o que menos importa.
      Respondendo sua pergunta: Sim, o asfalto ecológico É uma alternativa para aumentarmos em até um terço a durabilidade com qualidade em relação ao asfalto convencional – CBUQ (concreto betuminoso usinado a quente) – e ainda solucionarmos a questão do descarte de pneus que se entulham Brasil a fora. Contudo se faz necessária uma melhor consciência e um maior entendimento por parte do povo (sempre) e do poder público que, em suas licitações, não acolhem essa alternativa por falta de conhecimento técnico e excesso de preguiça já que sua aplicação requer mais atenção. Mas acima de tudo, existe na política, algo que inviabiliza esse e vários outros processos que primam a qualidade: Um governante não vai gastar um pouco mais para fazer uma obra que irá deixar seu sucessor sem a preocupação com a manutenção desse trecho podendo assim, investir melhor os recursos e se destacar mais no mandato. Outro ponto é que quanto mais frequência de obras, mais possibilidades de desvios do dinheiro público – O corrupto prefere fazer uma obra de asfalto a cem escolas, pois é mais lucrativo pra ele – . E, o último, é que o povo não reconhece um bom governo se este não estiver “consertando” algo para mostrar serviço, mesmo que esse não seja de boa qualidade, mas para eles não importa, o povo não sabe avaliar mesmo…
      Isabella, repare que tudo depende muito da política. Esse tipo de asfalto vem crescendo no Norte do País, mas poderia ter mais representatividade com um pouco de interesse pela qualidade. Mas o que vimos é a resistência ao desconhecido, falta de conhecimentos técnicos, investimentos e de boa vontade.
      Sucesso na sua caminhada.

  • Muito boa a matéria. O Brasil se investisse em ferrovias em 25 anos teria um PIB a mais de lucratividade só pelos benefícios gerados pelo modal ferroviário.

    Parabéns pela matéria.

    Guilherme Mattes

  • Parabéns pelo texto!

    É lamentável as estradas que temos no Brasil…

    Você anda pela Europa inteira e não encontra um buraco nas estradas, se tiver, com certeza, passando alguns dias depois, ele não estará mais lá. Maioria das estradas de interior também são asfaltadas ( sendo que aqui, mal e mal BRs são transitáveis ).

    Talvez, se investissem o dinheiro que usarão para fazer estádios, sedes para os jogos olímpicos e para a copa do mundo em estradas, seria bem mais vantajoso e viável para nós!

    ''Sob qualquer ponto de vista – econômico, político e militar – o transporte é, inquestionavelmente, a indústria mais importante do mundo.'' (Congresso dos EUA)

  • Guilherme Furquim Jr

    Muito boa matéria Marcos!

    O Brasil, agora 6° maior PIB do mundo, mais do que nunca precisa de investimentos em diferentes modais. Somos reféns de gestores públicos incompetentes e corruptos…