Não há resposta simples para solucionar a crise – Parte 1/3

Instituto MilleniumMatéria publicada no Instituto Millenium, de autoria de Fernando Raphael.

Um dos resultados da crise internacional dos sub-prime que estourou no segundo semestre do ano passado é o reavivamento do debate sobre as teorias econômicas do “mainstream” e os “outsiders”. Há tempos que se discute se a teoria econômica deve ser mais keynesiana ou mais neoliberal ou conservadora. A discussão sobre os pacotes e as alternativas para superar a crise levou mesmo a frases e questões como esta abaixo:

“Se antes os bancos eram acusados de emprestar muito agressivamente, agora eram acusados de muito conservadorismo. Se os americanos eram acusados de consumismo irresponsável, agora demandavam mais gastos deles. E o próprio governo, que tanto pregou a luta por casas mais acessíveis, estava agora fazendo de tudo para evitar a queda nos preços das casas. Para onde foi a meta de casas acessíveis? Woods questiona se algum traço de pensamento racional ainda pode ser encontrado em meio a tanta insanidade.” (Constantino, R.)[i]

Aqui está uma questão que não está sendo levada em conta, mas que tanto Mises quanto Hayek apontam em seus trabalhos. No livro “Ação Humana” há até uma frase do Mises que ficou gravada na minha cabeça sobre a questão da inflação. A inflação é a principal forma de avaliar que se a taxa de juros está artificialmente alta ou baixa de acordo com a teoria dos ciclos econômicos de Von Mises. Se há inflação, dentro desta visão, é porque há um excesso de moeda no mercado. Então, quando há excesso de moeda o caminho é aumentar a taxa de juros para conter a inflação. Este é o mecanismo básico de regulação que tem sido adotado em todo o mundo para controlar a oferta e demanda por moeda.

No caso da frase famosa, do Mises, ele dizia que uma vez atropelado o pedestre (isto é, uma vez que a inflação tivesse aparecido por conta do excesso de gastos), dar a marcha à ré não ajudaria a crise passar (a marcha à ré seria a deflação, isto é, a queda generalizada no índice de preços). Portanto, mesmo os liberais austríacos defendem que o ajuste para condições monetárias reais deveria ocorrer num contexto de preços neutros, e não de deflação, para evitar prejuízos maiores no sistema monetário. Só que para aumentar os gastos num contexto de crise econômica, a única maneira eficaz encontrada pelos economistas, independentemente da escola econômica de origem, é o aumento do consumo.


INFLAÇÃO E DEFLAÇÃO

Vou tentar resumidamente explicar o que acontece num contexto de inflação e de deflação do ponto de vista dos devedores e dos juros. Quando o índice de preços está subindo, isto é, inflação, o devedor é beneficiado. Porque os empréstimos, no mundo todo, são em geral tomados em taxas pré-fixadas. Portanto, se eu emprestar 1000 para pagar 10% ao ano, e a inflação for de 5%, eu na verdade estarei tomando um empréstimo a 5%, porque  a moeda estará se desvalorizando.

Em geral o credor já calcula o “prejuízo” da inflação e o adiciona na taxa de juros. É o que se chama de juros reais. Se a inflação se acelerar, isto é, houver aumento do crédito na praça por conta de juros baixos, os credores terão um prejuízo maior, mas os devedores terão um lucro maior que o esperado. O credor poderá recuperar o prejuízo emprestando mais dinheiro para o devedor, que tomará o empréstimo segundo a nova taxa.

No caso de deflação, isto é, quando os preços diminuem, o risco de quebradeira generalizada é muito grande. Porque o credor irá receber mais pelo dinheiro, já que houve uma apreciação. E o devedor não terá como pagar por um novo empréstimo mais barato, porque já não conseguirá cobrir as despesas correntes. Com isto, os bancos não terão como emprestar dinheiro, pois de um modo geral, as pessoas estarão numa situação financeira ruim, recebendo menos por seus produtos do que o que era esperado.

Para evitar que isto aconteça um dos instrumentos regulatórios utilizados é a redução da taxa de juros, para que o dinheiro extra no mercado force os preços a subir e mantenha o nível de preços equilibrado, preferencialmente com uma leve taxa de inflação. Uma deflação, por menor que seja, é muito mais prejudicial para a economia do que a inflação. A teoria dos ciclos econômicos de Mises foi pensada para um contexto em que a moeda era lastreada no ouro. Ou seja, a moeda de reserva era o ouro. Cada país e seu sistema bancário deveriam manter uma quantidade de moeda estocada para poder cobrir eventuais saques.

Num contexto de inflação acelerada, o ouro seria apreciado, ou seja, mais pessoas desejariam trocar mais papel moeda por ouro. Um ajuste de preços deveria se dar num contexto em que assumir a nova paridade cambial da moeda corrente com o ouro seria a solução mais rápida para o excesso de liquidez, ou seja, de moeda, na economia. Acho que não preciso nem me alongar sobre as diferenças existentes entre se utilizar um bem físico, no caso o ouro, como moeda de lastro e o caso atual, em que a moeda de reserva é o próprio papel moeda e este não está lastreado em nenhum bem tangível, como dizem os contadores.

O que aconteceu nos EUA é uma espécie de falha dos mecanismos regulatórios. Mas nem um deles agiu longe da teoria ortodoxa, que é “liberal”. Ou seja, os mecanismos de regulação agiram para evitar a deflação. Quando o preço das casas e das commodities começou a despencar, principalmente o dos imóveis, isto puxou o índice de preços para baixo. A deflação tornou-se inevitável. A teoria liberal de regulação é relativamente clara em relação aos riscos da deflação, por isso a taxa de juros foi reduzida. A mesma coisa ocorreu em 2001, quando houve uma queda nos preços, tanto de commodities quando de imóveis e ações (pelo 11 de setembro e pela crise da bolha da internet). Obviamente, as casas tornaram-se bens muito mais baratos e acessíveis do que estavam antes da crise, mas nem por isto este se tornou um cenário desejável.

A queda dos juros naquele momento não foi algo irresponsável como muitos dizem. Ela não visava apenas uma expansão monetária como forma de reativar a demanda agregada, mas foi tomada visando evitar a deflação que se anunciava. Muitos, de forma ressentida, argumentam que quando há crise nos EUA e na Europa eles baixam os juros e quando há crises no “terceiro” mundo a receita é aumentar os juros. Não há contradição nisto. Aqui a crise é causada por inflação, lá por medo de deflação, portanto a “receita” deve ser inversa mesmo. Sem contar que como as economias do terceiro mundo crescem mais rapidamente, o risco de inflação aqui é muito maior. Tanto que uma vez instalado o contexto de deflação, como o que ocorreu no Brasil nos primeiros meses do ano, as autoridades monetárias rapidamente trataram de diminuir a taxa básica de juros o que, aliás, deveria ter sido feito antes.


[i] – Rodrigo Constantino: “A Crise Segundo a Escola Austríaca”.

Confira amanhã a 2a parte desta matéria.

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Leandro C. Coelho, Ph.D., é Professor de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos na Université Laval, Québec, Canadá. Conheça mais no menu Sobre (acima).