O vazamento de petróleo nos EUA e a nossa logística

O vazamento de petróleo no Golfo do México, EUA, causado pela explosão da plataforma Deepwater Horizon da petroleira inglesa BP (British Petroleum) é o maior desastre natural da história daquele país. As notícias têm sido veiculadas na mídia desde 20 de abril, dia da explosão, e nesta semana (em 15 de junho) o presidente americano Barack Obama fez um discurso à nação que chamou minha atenção e me fez pensar além, na logística brasileira. Vamos entender essa história por partes.

Primeiro, além do óbvio de tentar acalmar as populações atingidas e garantir apoio do governo e pressão na BP para recuperar o litoral e pagar indenizações, o presidente alertou para algo que está sendo discutido no mundo todo, mas ainda são poucas ações concretas que vemos em prática: a necessidade de mudar a matriz energética.Ele dizia que essa explosão só ocorreu porque hoje precisamos buscar petróleo a 2 km abaixo do nível do mar, a mais de 100km da costa, perfurando rochas submarinas; todo o petróleo de fácil alcance em terra e águas rasas foi consumido nas últimas décadas, onde só exploramos o petróleo existente sem nos preocuparmos que esse é um bem que acabará.

Existem alternativas sendo pesquisadas, e o presidente americano fez questão de enfatizar que a Europa tem mais ações que a América, e os chineses já lançaram um carro 100% elétrico, enquanto esse mercado ainda é incipiente por aqui.

Com um discurso nacionalista, ele comparou o desafio da migração da dependência do petróleo com a chegada do homem à Lua: enquanto muitos diziam que era impossível, eles pesquisaram e tornaram o sonho real. Segundo ele, o mesmo deve ser feito com fontes de energia: mesmo que ainda não se saiba quais as formas mais eficientes ou a mais promissora, deve-se pesquisar nessa área, investir milhões agora, pois se isso não for feito já, o futuro trará uma conta amarga (a falta generalizada de energia).

É aí que lembrei da nossa logística: hoje pagamos no Brasil o preço de uma logística ineficiente e ineficaz. Temos um litoral imenso, rios navegáveis mas usamos as rodovias que cortam o Brasil de leste a oeste, de norte a sul. Temos imensas regiões planas e próprias para o uso de ferrovias, mas nossa malha ferroviária utiliza 5 bitolas diferentes, e um trem não consegue sair do sul até o sudeste, pois os trilhos são incompatíveis. Somente hoje em 2010 estamos vendo a duplicação da BR 101 na região sul, que por vezes já se mostra insuficiente para atender às demandas de transporte (lembre-se que essa rodovia até pouco tempo com uma única pista dá acesso ao Porto de Imbituba, por exemplo).

Nossa agricultura não consegue escoar a produção do Centro-Oeste até o litoral de maneira eficiente – paga-se mais para levar a soja até o Porto de Santos do que para enviá-la para o outro lado do mundo. Nossa indústria sofre com custos logísticos imensos e isso atrapalha nossa competitividade internacional.

Nossos aeroportos são uma verdadeira vergonha com tantos atrasos e cancelamentos e não vemos luz no fim do túnel para receber a Copa e as Olimpíadas em poucos anos.

Então, hoje pagamos um preço elevado pela falta de atitude (ou foco errado) em decisões tomadas há 20, 30, 40 anos. Um preço que o presidente Obama parece não estar disposto a deixar para as gerações futuras no que diz respeito ao uso de energia nos EUA. O que estamos fazendo no Brasil com relação a isso?

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Leandro C. Coelho, Ph.D., é Professor de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos na Université Laval, Québec, Canadá. Conheça mais no menu Sobre (acima).

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  • Há muito a ser feito ainda, e temos que tomar decisoes rapidamente, pois nao basta ter apenas uma boa estratégica logística, se nao colocarmos em prática, nada irá resolver.

    Adorei a matéria.

  • Jader Santos

    Simplesmente, adorei a comparação.

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  • Cintia

    mesmo sendo incipiente no assunto, achei a matéria muito boa