Roubo de cargas – um problema de todos

Roubo de cargas – um problema de todos

 

Há muitos e muitos anos lidamos com essa imposição da violência que assola o Brasil e o mundo. Muitos não param para pensar o quanto ela nos custa devido sua presença constante em nossa rotina. Ela, a violência, custa caro, muito caro.

Não seria exagero calcular que, assim como os impostos, o preço do carro que você dirige teve e tem um percentual para a violência, o computador que você usa agora teve seu preço acrescido em torno de 15% ou até mais, a depender do tipo e local onde se encontra, devido ao perigo, puro e simples, do roubo de cargas. Imagine que até no pãozinho o custo da violência está presente. Como se não bastasse pagarmos por ela, ainda temos que suportar as diversas mazelas que nos traz.

roubo de carga no transporte rodoviárioEsse valor cobrado pela violência sobre o nosso consumo vem do seu efeito sobre a logística, na forma do roubo de cargas e da violência no trânsito, os chamados “sinistros”. Assim como no ano de 2009, com mais de 13.500 ocorrências de roubo de cargas e R$ 1 bi em prejuízos em todo o País, em 2010 seguiram crescendo. Só os empresários paulistanos amargaram um prejuízo direto de R$ 280 milhões e, nos primeiros levantamentos de 2011, já se registrou R$ 70 milhões em mais de 1.800 ocorrências. Do total no Brasil, 53% das ocorrências são registradas no estado de São Paulo, com maior incidência nas rodovias Régis Bittencourt (BR-116) e Anhanguera, e 21% no Rio de Janeiro. O foco dos bandidos se volta às cargas com alimentos, eletroeletrônicos e medicamentos, mas não se restringe a esses produtos.

Na busca pela diminuição dessas ocorrências, as transportadoras, sem direito à escolha, têm um custo de 15%, em média, voltado à escolta e equipamentos de segurança – Já foi explicado no início quem paga esse valor. É muito. Mas, o que fazer? Os bandidos possuem equipamentos de bloqueio de sinal onde neutralizam a ação da segurança. Não temem a escolta armada porque possuem armamento mais pesado e, às vezes, estão disfarçados de policiais nos acessos às capitais. E o Estado, que deve proteger o comércio e o cidadão? Afinal, os impostos também se baseiam em serviços essenciais. O problema é que absorvemos essas ações da violência e compomos nossa rotina. O problema virou fator de cálculo na hora de compor um preço – “Deixe-me ver… 48% de impostos… 15% para a violência…” Está errado. Isso não pode ser tratado com naturalidade. Estamos falando da vida de motoristas, em especial. Se pagar por isso já é um absurdo, que dirá o custo de uma vida humana.

As ações da polícia visam à inibição dessa prática. É bem sabido que o crime se atualiza constantemente. As modalidades vão emprestando seus recursos a outras à medida que o combate se intensifica. Em São Paulo, a patrulha aérea das ruas começa indicar um paliativo. É claro que é impossível zerar esse tipo de ocorrência [Eu também acabo de trazer isso para minha rotina real]. Mas, ações sempre terão que ser tomadas e atualizadas. Os bandidos são os únicos que deveriam estar acuados. Esse combate deveria se intensificar aos receptadores também. Esses roubos só acontecem porque a carga já possui um destino. O comércio formal é o destino da grande maioria delas.

As empresas voltadas ao transporte de cargas também têm um papel importantíssimo, tanto no aprimoramento de suas operações quanto no treinamento de seu pessoal, em especial, motoristas para rever certos hábitos. Eles correm perigo e continuam atraídos à falta de atenção e de estratégia conjunta com a base operacional. É quase uma estratégia de guerra. Claro, reagir nunca. Mas, as cargas não são roubadas apenas por seu conteúdo, muitas o são por seu comportamento.

Com isso, concluo que a violência é a única coisa que existe no mundo em que não há um só indivíduo que sofra efeitos indiretos. Ela é de efeito direto em todas as pessoas, sem exceção alguma. Se ela não lhe rouba o carro, sua bolsa ou carteira, lhe rouba qualidade de vida. E só nos resta combatê-la fora da normalidade. Trazê-la à normalidade é admitir que não há solução.

 

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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.

  • Valmir Dantas

    O problema é que assuntos dessa gravidade são tratados com naturalidade. Boa exortação, Marcos. Temos que divulgar mais essas informações de qualidade para, quem sabe, colhermos os resultados de que precisamos.

  • Marcos Auréli

    Bela dissertação do Fabiano Faria. Ele uniu as principais razões que levam a esses prejuízos: falta de qualificação e comodismo (em excesso). Realmente, assistimos rotinas sem delas extrairmos lições que nos levem a trabalhar soluções.

    Viajo bastante pelas estradas (principalmente do Nordeste) em meu trabalho de mapeamento e sei que certos trechos são perigosos à noite e outros em pleno dia. Consigo assim, me programar melhor com todas as variáveis possíveis. Eu, como uma pequena "formiguinha", consigo cumprir com meus prazos observando meus riscos, por que empresas não observam?

    Um ano desses, montei uma operação com a PF para comprar uma carga da minha própria empresa que nos foi oferecida pela própria quadrilha através do telefone em nossa embalagem. Ou seja, quantos pontos fracos podemos identificar nesse fato? A descrença nas leis, a oferta aos formais… O forte só a cara-de-pau.

    Parabéns ao Fabiano pelo apontamento de soluções. Triste saber que ainda deveremos conviver com esses fatos devido despreparo e falta de interesse na condução desse grave assunto. Dessas importantes observações, podemos extrair soluções.

  • Bom dia, a todos os leitores.

    Parabéns pelo artigo, Marco Aurélio. Realmente, retrata o dia-a-dia do transporte rodoviário. Para complementação, a escolha dos prestadores de serviço na gestão do risco, é de extrema importância, além da observação de itens importantes, na rotina da empresa de transporte e/ou logística. Se me permite um acréscimo, gostaria de transpor um (longo) comentário que fiz, numa rede social, sobre algumas mudanças necessárias, para a melhor gestão do risco rodoviário:

    (…) indico as seguintes análises, que servem de base para a análise dos procedimentos de uma boa Gerenciadora de Riscos (GRIS). Finalmente, relembro que é uma crítica pessoal, passível de correções (talvez, ainda hoje!) e réplicas por pessoas com maior conhecimento e experiência:

    – Colaboradores com uma boa noção de geografia(!): Pessoal, é incrível o quanto o conhecimento do território brasileiro, por parte dos operadores e demais colaboradores das empresas que, em algum momento, participam da gestão de riscos, é fraco – seja Cia. Seguradora ou suas terceirizadas, GRIS ou mesmo empresas de tecnologia. Como a FEDERAL ST faz serviços de pronto atendimento (pronta resposta) para vários players do mercado, em todo o território nacional, às vezes nota-se esta dificuldade específica, na apuração da posição exata (mesmo com o equipamento demonstrando o posicionamento correto, com baixa margem de erro) ou de conhecimento da rota disponível no PGR, que está estabelecido para o cliente. Tal conhecimento em geografia deve ser um dos principais quesitos para contratação de colaboradores, e na nossa empresa temos o hábito de fomentar a ideia que nossas equipes frequentem as Centrais Contratantes (clientes)- e lá, conheça a realidade regional do nosso cliente, seja GRIS, tecnologia ou frota;

    – Um bom PGR, com PPA (plano de prevenção de acidentes): Para início de conversa, não acredito em PGR grátis! Todo o trabalho de consultoria para a confecção do PGR tem um custo – na verdade, a GRIS analisa toda a operação do cliente e, com certeza, haverá custos para isso. Alguns poderão falar que 'tal custo/investimento está incluso na mensalidade de gerenciamento de carga/casco'. Nos valores praticados atualmente, não acredito. O PPA, que é inovação do mercado de poucas GRIS (e que, por conseguinte, estamos estabelecendo em vários de nossos clientes frotistas), vem para inovar na prevenção dos sinistros rodoviários, muitas vezes, causados por eventos previsíveis, em sua maioria: saída de pista, tombamento, colisão com objeto fixo, etc. Estabelecendo como regrada em várias parcerias que temos, conseguimos provar, por 'a+b', que os maiores prejuízos no transporte rodoviário não são derivados (pelo menos, nos nossos clientes e parceiros) de roubo/furto, e sim de acidentes de trânsito (incluindo aí operações de carga e descarga) ou não atendimento de procedimentos estabelecidos para o condutor do veículo de carga e outros colaboradores.

    – Acompanhamento de sinistros rodoviários: Não adianta a GRIS apenas ser informada do sinistro rodoviário: ela deverá, pelas ferramentas disponibilizadas pela tecnologia, observar a interrupção da viagem, frenagem repentina ou mesmo outros indicadores em seu sistema, que demonstram atividade de não conformidade, podendo ser um possível acidente (ou incidente, depende) com o veículo transportador. Daí, estabelecida a confirmação, a GRIS deverá providenciar, em conjunto com o responsável pela gestão da frota, o devido acompanhamento do sinistro, objetivando com isso, ter a VERDADE REAL do acontecido, não dependendo apenas de informações de terceiros, do policiamento ou mesmo do colaborador/agregado – os quais, muitas vezes, querem minorar sua responsabilidade no ocorrido, ou mesmo (o fim do poço) promovem a inversão do ônus do evento, causando possíveis danos futuros (e, por isso, muitas vezes, não sendo possível comprovar a má-fe) à gestão da apólice e acionamentos jurídicos, decorrentes do evento.

    – Informação sobre a base de colaboradores: Não adianta ficarmos discutindo o famigerado 'cadastro de motorista', no qual só consta (me provem o contrário!) informações cadastrais disponibilizados pelo próprio condutor, e passível de confirmação. Portanto, acredito que uma boa gestão de risco passa pela ANÁLISE CADASTRAL, fugindo do já estabelecido pelo mercado transportador, indo 'mais a fundo' na busca de referências e qualificações do colaborador, quais sejam: criação de métodos e procedimentos de análise do cadastro (observação de variáveis; criação de base própria de dados); contingenciamento de perfis de risco ('bandeiras amarelas', para situações discrepantes); análise própria de sinistralidade rodoviária (este, método inovador, por excelência). Ao fim, observem que eu não foco a análise APENAS no condutor do veículo, mas também os colaboradores que lidam diretamente com o fluxo logístico ou com as informações decorrentes. Tal preocupação se deve ao fato que, em ações de loss prevention em que fomos acionados por nossos clientes, observamos (e comprovamos!) que o fluxo de informação estava muito aberto, e que o grande índice de desvio de cargas (registrados como roubo ou furto, por parte da má gestão do sinistro) era devido ao vazamento específico.

    – A inovação da gestão própria de risco, por parte das logísticas e frotas: Com fulcro em bases estatísticas, algumas Cias. Seguradoras estão aceitando a gestão própria do risco, promovida pela logística – diferenciando o estabelecido há tempos, em que pese a necessidade de uma empresa homologada pela Cia. para tal serviço (mesmo em espelhamento ou redundância), a despeito das atividades (já) bem desenvolvidas internamente pelo segurado. Temos várias logísticas como clientes da FEDERAL ST (seja na parte de regulação de sinistros ou serviço de pronto atendimento), as quais já tem sua própria gestão do risco, não carecendo mais compartilhar informações com outras empresas e dependendo das mesmas, para que tenham uma boa análise de risco e aceitação do mesmo. Tal inovação vem a modificar gradativamente a gestão do risco do transporte, acredito. O assunto é capítulo no meu trabalho final do MBA em Seguros que faço na FUNENSEG/ENS, e tratarei disso, futuramente, em tópico específico em nosso fórum;

    – Acreditar no serviço de gestão de cascos: Não só a gestão do risco do transporte de cargas é viável e/ou necessário; precisamos estabelecer a cultura da gestão de cascos, onde teremos uma minoração dos eventos de roubo/furto para estes veículos, bem como um controle maior na agilidade do deslocamento e/ou dos procedimentos proativos/preventivos de segurança da frota – mesmo estando estes vazios. O investimento compensa;

    – Diminuição da base do TELEMONITORAMENTO: O telemonitoramento deverá, salvo melhor juízo, ter sua utilização desestimulada, apesar do grande fluxo de gestão de riscos (se é que pode ser chamado assim, nesse caso) ainda dominante nas rodovias brasileiras. Tal serviço ainda consegue seu espaço, pela justificativa que grande parte da frota brasileira de transporte rodoviário (principalmente, grandes cascos) ainda não tem algum tipo de tecnologia instalada. Pode ser. Todavia, o mercado deverá ‘estimular’ o incremento desta ferramenta de controle (tecnologia de rastreamento, posicionamento e telemetria), seja considerando a instalação dos mesmos em agregados (transportadores autônomos com certa regularidade) ou definindo o transporte apenas para aqueles que tenham algum tipo de tecnologia mínima. A propósito, pode ser que alguém do grupo não conhece a prática: é uma gestão de riscos, onde a carga é colocada em cascos que não oferecem (ou não informam) qualquer tipo de tecnologia, e a apólice da Cia. Seguradora aceita tal situação, desde que promovida a informação cadastral homologada e um acompanhamento ponto-a-ponto, ao longo do trajeto estabelecido. Em muitos casos, é promovido apenas um contato telefônico entre a GRIS e o condutor do veículo, em horários estabelecidos (normalmente, de 6 em 6 horas, para grandes trajetos e/ou locais de pouco risco). E, antes que alguém se escandalize, temos cargas de alto valor agregado (tratores, equipamentos industriais, commodities agrícolas ou minerais, entre outros itens) ainda transportadas por este método de gestão de riscos.

  • Flávio Cavalc

    É verdade, pagamos muito caro, mas infelizmente o governo sabe que não vamos atrás de nossos direitos para garantir a nossa segurança e dignidade como seres humanos…e o governo não está nem um pouco interessado em segurança, a não ser, dele mesmo…Uma ótima matéria! Valeu mesmo!

  • Rômulo Silva

    Achei muito interessante a colocação de que pagamos por essas ocorrências. Realmente pagamos muito caro pela falta de ação do poder público. Enfim, poucos lucram e muitos pagam nesse "negócio". Boa matéria.

  • Nivaldo Pessoa Filho

    A realidade essa como afirma COSTA, Marcos em seu artigo:

    "Esses roubos só acontecem porque a carga já possui um destino. O comércio formal é o destino da grande maioria delas". O combate a essa práticas só serão abaladas quando os órgãos responsáveis pela segurança de nosso país intensificarem a fiscalização a esses receptadores formais, usando praticas enérgicas mais consideráveis diariamente nos seus CD.

  • Tive um caso muito engraçado. Contratei uma transportadora(por sinal muito boa), com licitação, reunião de abertura e tudo que pedi um bom contrato de transporte. Na reunião de abertura citada, o ponto que chamei mais atenção foi seguro (roubos e sinistros). Conforme a transportadora, sua apólice cobria sinistros até 1,5 milhões de reais, logo pensei… boa, resolvi meu problema.

    Acontece que apos uns 8 meses de prestação de serviço, foi roubada uma carga com aproximadamente 400 mil reais de cabos de cobre, pensei, sem problema a seguradora ressarce!!!

    O que aconteceu foi que a seguradora disse que a apólice cobria 1,5 milhões para materiais diversos, menos cobre e alumínio, sendo para este tipo de material cobertura de 80 mil. A solução que encontrei foi simplesmente cometar com a transportadora que quem contratou seguro foram eles, e eu tinha contratado transporte.

    Por sorte(ou cafezinho para certa entidade governamental), a carga foi encontrada intacta e não tivemos maiores problemas, mais aos demais donos de carga resta utilizar como exemplo e ter bastante atenção nas licitações e contratações de transporte.