A logística e o desafio do transporte público de passageiros

vários ônibus para o transporte públicoPara o leigo, muitas vezes a logística se resume ao transporte de produtos de um ponto a outro. Sem querer redefinir a logística (porque uma boa matéria com conceitos e definições de logística já está publicada), hoje vamos falar sobre o papel das decisões logísticas no transporte urbano público de passageiros.

O transporte público é um importante serviço para os cidadãos, e um enorme benefício para as cidades. Com qualidade suficiente, o transporte público de passageiros pode contribuir muito para o bom desempenho da logística urbana, na medida em que incentiva as pessoas a não usarem seus carros e a compartilhar os ônibus, metrôs e trens.

Pense um pouco na parte técnica das decisões que precisam ser tomadas antes da instalação do serviço: quais rotas de ônibus serão disponibilizadas? Onde serão colocados as paradas de ônibus? Com que frequência oferecer estes ônibus? Algumas decisões são ainda mais importantes, pois não podem ser mudadas com facilidade: qual o trajeto deve ter uma linha de metrô? Da mesma forma, onde construir um aeroporto?

As decisões sobre quais linhas serão oferecidas, o local da parada do ônibus e a frequência de atendimento devem ser tomadas ao mesmo tempo – não pode ser decidido uma, depois outra. As decisões quanto as paradas impactam quais os possíveis trajetos das linhas dos ônibus, e dependendo do trajeto precisa-se de mais (ou menos) frequência de atendimento.

Estas decisões levam em conta a população de cada região a ser atendida pelas possíveis linhas, o custo de implantação e operação e os destinos mais frequentes dessa população.

No caso dos metrôs, é necessários fazer mais estudos, pois são decisões difíceis de serem revertidas: não dá de retirar os buracos feitos para o metrô de um bairro e levar para outro, espera-se que o metrô fique em funcionamento onde foi construído por muitas décadas. Nos ônibus, apesar de indesejável, é possível mudar as rotas e os locais de parada. São alterações que custam muito menos dinheiro, mas influenciam a vida daqueles que utilizam o serviço, portanto não se deve mudar mais do que uma vez por ano.

Por outro lado, o que um bom sistema faz, é ter pré-agendado diferentes horários, por exemplo, para levar em consideração que as rotas em direção às universidades ficam mais vazias durante as férias, enquanto as rotas que levam às praias são mais utilizadas neste período. Assim, avisando a população com antecedência, faz-se um transporte público eficiente, de qualidade e adaptado à realidade da cidade.

Por outro lado, nas linhas de metrô, como são investimentos de prazo mais longo, não precisam levar tanto em consideração quais os bairros mais populares no momento, pois caso decida-se instalar uma linha que passe por uma região menos povoada, espera-se que em alguns anos essa região desenvolva-se. Portanto, a construção de uma linha de metrô urbano pode servir para direcionar o crescimento da cidade para onde o poder público deseja.

Todas estas decisões levam em conta aspectos subjetivos mas são feitos muitos cálculos complexos para avaliar o impacto do serviço, a qualidade e os custos envolvidos (tanto na implantação quanto na operação). Estes cálculos são feitos por uma área de estudos chamada Pesquisa Operacional (para mais detalhes sobre a Pesquisa Operacional clique no link, há uma série de matérias sobre este tema).

Estes tipos de transporte públicos aliados à outras iniciativas como o aluguel de bicicletas (veja a matéria!) tem o poder de fazer o trânsito da cidade muito melhor.

Com isso, você viu que a logística está mais presente no seu dia-a-dia do que parece. Na próxima vez que entrar num ônibus (ou passar por um no seu carro), lembre-se que alguém precisou estudar qual a rota deste ônibus e em quais pontos ele deve parar. A cidade será diferente para você (ao menos é para mim!).

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Leandro C. Coelho, Ph.D., é Professor de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos na Université Laval, Québec, Canadá. Conheça mais no menu Sobre (acima).