Assédio moral nas relações profissionais: a empresa

Assédio moral nas relações profissionais: a empresa

Um tema que inspira tantos debates e poucos projetos ainda não inspirou uma lei específica que possa agir contra uma das maiores violências – senão a maior – nas relações de trabalho.

Atualmente, os problemas com as relações interpessoais são os maiores motivos de demissões nos mais diferentes setores dos mercados comerciais e produtivos. As pessoas parecem não se importar com a necessidade da existência de outros companheiros de trabalho para a evolução das atividades da empresa. Surgem então, relações de desrespeito e fadiga moral que bloqueiam o curso de desenvolvimento da empresa e do profissional.

Como é do conhecimento de todos, nenhuma relação é durável quando perseguida por mal-estar. As empresas vêm atentando a esses prejuízos e, com certeza, atentarão bem mais aos custos ocasionados por essas relações desastrosas e desrespeitosas. Talvez então, seja extinto esse paradoxo de ter a iniciativa de punir com demissão um “profissional” que assedia e não proteger o assediado. Embora muitas empresas vejam todas as relações contratuais com profissionais como algo passageiro, a necessidade de cuidar dessa relação é extremamente importante para que, se rescindida, não seja motivo de disputas judiciais e de prejuízos profissionais e pessoais na vida daquele funcionário que, com certeza, teve sua vida marcada por algo que as empresas parecem não ter controle algum.

Não é só pelo despreparo que se dão as desastrosas relações de trabalho. Como já citei em outros artigos, as pessoas estão se preocupando em demasia com as qualificações profissionais e estão esquecendo-se de ser pessoas. Afinal, a gentileza, a cordialidade e a humildade também são elementos fundamentais para o sucesso profissional. É preciso ser pessoa antes de ser profissional.

É dessa forma que se previne o assédio moral nas relações de trabalho, mas para espantar definitivamente qualquer efeito negativo na vida dos profissionais vítimas dessa violência, as empresas também devem parar de “investir” em programas que incentivam essa prática. Parece um desatino, mas algumas empresas promovem esses assédios com práticas antiéticas que agridem os profissionais e lhes condicionam a um ambiente de extremo desconforto.

São programas de avaliação de desempenho que mais atrapalham e desmotivam os envolvidos do que cumprem aquilo a que se propõem, ou deveriam. Verdadeiros assédios morais produzidos em escala dentro dessas empresas sendo vendidos como algo que promovem a mudança por meio da motivação. Ora, desde quando o ser humano está preparado para ouvir sobre seus defeitos e para reagir de forma positiva quando esses defeitos se tornam públicos? Talvez o efeito ameaçador intrínseco nesse ato que comprometa sua permanência nessa empresa seja mais eficiente do que a motivação à mudança perseguida por esses programas cheios de ideias vagas. Esse efeito – vale lembrar – obtido através do medo quando não volátil, tem efeitos totalmente contrários e nasce aí um componente de uma equipe que torce contra para se defender e tentar provar que ele não é tão ruim e que o problema não está nele.

Suas planilhas de desempenho que apontam os que mais acertaram promovem elogios coletivos que só estimulam o lado nada interessante de disputas individuais que buscam a auto-afirmação dentro da empresa. Imagine o efeito do apontamento de erros de forma coletiva…

Mais grave do que aquele chefe ou colega de setor que lhe assedia moralmente com apontamentos pessoais, é a posição da empresa em compactuar e, muitas vezes, ser o próprio agente assediador. Diria grave e desmotivador já que é praticado por aquela que mais perde nisso e, pior, por aquela que deveria proteger.

O papel das empresas na inibição dessas práticas de assédios vai desde o cuidado com as grandes coisas, como sua autoridade, até pequenas, como a escolha do local para uma confraternização, por exemplo. Nesses eventos não se pode permitir ambientes que segregam pessoas e promovem os mais diferentes tipos de assédios.

A relação entre assédio moral e sexual é muito próxima em muitos casos. Um pode resultar no outro. Mas é difícil dizer o que provoca mais danos. Embora muitas vezes não se dê a devida atenção ao seu início, eles tomam proporções devastadoras na vida do indivíduo que conduz à demissão, aos traumas e até mesmo aos suicídios. A proteção dos profissionais nesse âmbito vai refletir diretamente naquilo em que as empresas mais deveriam investir: qualidade de vida.

Mas, qual a fronteira entre uma cobrança por resultados ou uma simples crítica e um assédio moral? A resposta está naquilo que é controvérsia para se fundamentar um assédio: a forma e a repetição. A forma diz que um assédio pode se caracterizar numa única vez a depender de sua pungência, já a repetição condiciona o profissional a uma situação de constrangimento duradouro que lhe impede uma solução rápida e aí surge a necessidade de um apoio profissional; primeiro de um advogado e, muitas vezes, depois de um profissional da saúde.

Talvez esteja aqui a razão com que o Direito trata o assunto: Reza o Direito que esse ato se caracteriza pela repetição. Seria porque o assediado só o procura quando a situação está fora do controle após vários constrangimentos? A palavra “assediar” é sinônimo de “assaltar” – Atacar de repente; investir com ímpeto e de súbito –. Também não seria um fato gerador de traumas em que as leis deveriam contemplar? Se inibido no início, não se evitaria consequências maiores? Fica a discussão.

A verdade é que muitos profissionais vivem esse drama sem apoio nenhum. Precisam do emprego e por isso se submetem, não contam com o apoio dos colegas que também precisam do emprego e não contam com o apoio da lei, ainda branda ou inócua diante de casos crescentes de forma alarmante.

A questão é que as empresas precisam acordar para essa situação. Os modelos de gestão evoluíram além dos resultados, eles encontram fórmulas de sucesso a cada dia e todas têm as pessoas como elemento fundamental. Isso começa com o tratamento adequado dado a seus profissionais com extrema atenção à sua qualidade de vida. Muitas delas, não enxergam pessoas, enxergam números. Números falam, mas não têm sentimentos.

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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.