Brasil 2014: com ou sem emoção?

Brasil 2014: com ou sem emoção?

“Com ou sem emoção?”. É uma pergunta feita antes de um passeio de buggy pelas dunas das praias nordestinas. Quando se responde “com emoção”, o cérebro deve estar preparado para receber a visita do estômago e vice-versa. O pior é que diante de uma situação que ainda não foi experimentada, você tem que tomar uma decisão rápida entre não se arriscar e fazer um passeio “pouco divertido” ou se arriscar e se entregar, perigosamente, mesmo com a perícia do motorista local, ao sabor da adrenalina.

Nos negócios não deveria ser bem assim. Mesmo com a presença desses componentes de riscos e emoções, poderíamos ter mais tempo para nossas decisões se respeitássemos mais os prazos dos nossos planejamentos. Tanto já se comprovou que quando deixamos para a última hora a qualidade e os custos ficam comprometidos, mas essa falha ainda tem raízes fortes em pessoas e empresas. Então, como evitar riscos desnecessários, prazos e orçamentos estourados e a dúvida do alcance do objetivo? Simples. Conhecer para planejar bem. Manter-se cercado de informações, de variáveis e invariáveis, temperado com a vontade de fazer – e fazer bem feito.

As opiniões dos brasileiros divergem sobre a Copa da FIFA de 2014. Alguns acham um gasto desnecessário de uma verba com um aproveitamento melhor na saúde, segurança e infraestrutura. Isso na verdade, está dentro de uma descrença quanto ao uso correto do dinheiro público. Não é à toa. A FIFA e a CBF haviam divulgado um orçamento inicial de R$ 11 bi, agora são R$ 23 bi, mas segundo os últimos levantamentos, esse valor só atenderá obras nos aeroportos. O gasto real para a realização desse evento não é certo como é certa a variação desses valores até o último dia. Certa também, é a mudança na trajetória de responsabilidades envolvendo esse orçamento que, no lançamento da campanha, tinha sua maior fonte nos investimentos privados, o que não é verdade. Segundo o TCU (Tribunal de Contas da União) os investimentos da Caixa, BNDES e Infraero somarão 98,5% do total.

Vários outros problemas vêm rondando essa celeuma como o último estudo divulgado num telejornal sobre as reais capacidades dos nossos aeroportos. Segundo esses levantamentos, essas obras de ampliação já seriam necessárias simplesmente devido ao aumento de 21% do mercado doméstico em 2010 com um recorde de 155 milhões de passageiros. Essas obras de infraestrutura deveriam ser, no mínimo, duas vezes maior do que a previsão atual.

Com o “ensaio” do PAN 2007, realizado no Rio, onde o orçamento de R$ 386 mi passou para quase R$ 5 bi e com apenas 5% da infraestrutura absorvida após um ano, aprendemos que planejar não é simplesmente querer. Temos tudo para fazer diferente. Se o Japão devolve aos usuários um aeroporto e rodovias um mês após um tsunami devastador, o Brasil também pode cumprir com um calendário assumido perante o mundo de realizar o evento (agora) em 3 anos. O que falta? O grande princípio básico: PDCA. Obras estruturais vitais espalhadas pelos estados que sediarão o Mundial ainda não foram, sequer, para o papel quase 4 anos após a eleição.

Também se sustenta que essa estrutura irá compor boa parte do projeto para as Olimpíadas de 2016 no Rio. Não precisa entender muito de esportes para saber que a estrutura, com exceção das obras de acesso, de uma olimpíada é bem diferente de uma copa do mundo. O futebol olímpico já necessitaria de uma estrutura similar local. E as outras modalidades com suas delegações que totalizam milhares de componentes? Para isso, o dossiê da candidatura apresentada pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) contemplava um orçamento de R$ 28,6 bi. Esse orçamento está sendo revisto e já se estima superar os R$ 100 bi. Quanto ao tempo para estruturação? Só se sabe que o Rio terá apenas 2 anos para as obras, pois dificilmente os governos trabalharão simultaneamente com as obras dos dois eventos por questões de mão-de-obra, processos licitatórios e características dos eventos. Algumas bem compreensíveis já que não se pode, em 2014, trazer turistas de todo o mundo para um canteiro de obras, mas o planejamento já teria que estar afiadíssimo.

As soluções deixadas por esses eventos são valiosíssimas a exemplo dos países que já os sediaram. A tecnologia e infraestrutura incorporadas desenvolvem regiões inteiras somadas às experiências adquiridas por profissionais dos mais diversos segmentos. Não podemos esquecer que a razão desses eventos é o desenvolvimento do país, da cultura e do povo. A educação e segurança são postas à prova. A capacidade de gestão logística é a condução desse sucesso. No entanto, é vital que haja clareza nessas intenções e firmeza nos orçamentos. Já imaginou se as empresas adequassem seus orçamentos tantas vezes e tão significativamente antes do objetivo final? O processo de desenvolvimento do Brasil está “varrendo” os amadores dos mercados. Agora é hora de profissionalismo e seriedade. É hora de grandes desafios e grandes conquistas.

Não há dúvidas de que, bem administrado, esse evento irá “coroar” a ascensão do Brasil. Mas é necessário que o País perca esse hábito de deixar tudo para a última hora. Isso não funciona com um evento nessa magnitude. Isso é contra os princípios logísticos que tanto buscamos consolidar através de planos e soluções. O setor de logística não pode perder essa oportunidade ímpar de se firmar ainda mais na oferta de um grande diferencial em implantações e execuções ampliando sua capacidade de inovar. Temos a chance de transformar a Copa de 2014 em Logística 2014 com a ascensão definitiva desse setor que será o “regente” desses eventos com todos os seus riscos e desafios.

O Brasil já aceitou o “passeio”. Eu não sei como vai ser. E você? Com ou sem emoção?


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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.