O Just in Time está nos atrasando?

O Just in Time está nos atrasando?

Todos já sabemos que estes são tempos difíceis, mas será que sabemos por que a economia está sofrendo tanto? Uma teoria diz que o Just in Time (JIT) (bem como outras práticas de manufatura enxuta) são os culpados.

Veja uma analogia interessante: animais com um “estoque” de gordura tem mais chances de sobreviver em tempos difíceis do que animais muito magros. Ou ainda, pense num grupo de alpinistas numa geleira. A teoria do JIT diz que eles devem estar todos amarrados juntos com cordas bem pequenas… assim quando um deles cair, todos caem em sequência! Será que essas metáforas estão corretas? Será a manufatura enxura a causa dos nossos problemas? Existem razões para crer que ela é de fato o bode expiatório.

Pense na indústria automobilística, e na GM em particular. A demanda está (ou estava até bem pouco tempo) muito mais baixa do que a capacidade instalada. (Na verdade, já estava assim há bastante tempo, mas só agora percebe-se essa enorme discrepância.) Se eles mantiverem a produção atrelada à capacidade, então continuarão a aumentar seus estoques, convertendo dinheiro em estoque. Isto pode até funcionar por algum tempo mas eventualmente seu dinheiro acaba, e aparece o risco da falência. Foi este o problema que eles enfrentaram. A alternativa é para a produção, mas então você paga seus funcionários para fazer nada, e neste caso você continua gastando dinheiro, sem ao menos ter um produto aparecendo no final do dia. Isto é muito caro – em teoria, estoque pode ser eventualmente transformado em alguma receita.

just in time gmAgora, voltemos ao papel da produção enxuta no meio desta bagunça. Voltemos no tempo uns 2 anos: se a GM tivesse sido “menos enxuta”, então eles acabariam tendo menos dinheiro e mais estoques. Consequentemente, eles teriam sido atingidos pela crise mais cedo ou com mais intensidade. Se eles tivessem sido “mais enxutos”, então eles teriam tido menos estoque e mais dinheiro, dando a eles mais segurança para passar pelas turbulências do mercado. Pensando dessa forma, os problemas pelos quais a GM passou aconteceram porque ela não foi enxuta o suficiente, e não o contrário.

No entanto, é possível argumentar no sentido contrário – se o JIT fosse o problema, então a indústria automobilística mais enxuta de todas estaria sofrendo quase nada. Toyota e Honda estão entre as mais enxutas do mundo, mas também estão sofrendo – talvez nem tanto, o que novamente é consistente com a noção de que durante crises, ser enxuto é uma grande ajuda. Talvez a melhor metáfora seja a seguinte: duas pessoas são jogadas ao mar e precisam sobreviver, cada uma por si. Elas enxergam uma ilha e começam a nadar rumo à segurança. Quem tem mais chances de sobreviver: o “enxuto” e malhado, ou o gordinho com “estoques”?

Mas não se deixe enganar, ainda podemos levantar um outro argumento. Agora que a demanda por carros com baixa emissão de poluentes está aumentando, o que fazer com os beberrões de gasolina (e álcool)? O que fazer quando alguns estoques (de maneira geral, não apenas de carros) tornam-se obsoletos? O que fazer com as linhas de produção onde já foram investidos milhões (bilhões)? Como lidar com os investimentos de décadas em design que agora começam a ficar ultrapassados?

São perguntas que só o futuro poderá responder. Mas você pode deixar sua contribuição nos comentários.

Baseado no texto “Is JIT dragging us down?” de Gerard Cachon e Christian Terwiesch, publicado no blog Matching Supply with Demand. Tradução e adaptação feitas por Leandro Callegari Coelho e autorizadas pelos autores exclusivamente para o Logística Descomplicada.

Gostou dessa matéria? Doe qualquer valor e ajude a manter o Logística Descomplicada gratuito:

Leandro C. Coelho, Ph.D., é Professor de Logística e Gestão da Cadeia de Suprimentos na Université Laval, Québec, Canadá. Conheça mais no menu Sobre (acima).