O que temos a comemorar no dia da logística?

O que temos a comemorar no dia da logística?

Há exatos 70 anos, em 6 de junho de 1944, a maior mobilização logística da história ocorria na Normandia, a noroeste da França. Conhecida como “Dia D”, essa operação militar envolveu cerca de 200 mil pessoas; entre essas, 155 mil homens desembarcaram numa faixa litorânea de 80 km em 14.200 barcos apoiados por 600 navios e milhares de aviões. Essa operação foi fundamental para o fim da II Guerra Mundial onze meses depois.

dia da logisticaA data para comemorar o dia da Logística não poderia ser diferente, não só pela operação em si, como pela razão, pelo propósito. Contudo, hoje não temos muito que comemorar. Aquela história de “descansar enquanto carregamos pedras” é bem aplicada à Logística, mas não deveria ser assim. Vivemos hoje uma situação de impotência diante das investidas contra o desenvolvimento que poderíamos proporcionar ao país, se para isso ele fornecesse meios. Vivemos num misto de alegria e dor quando vemos projetos tecnológicos de brasileiros dando certo em outros países. Poderia ser aqui, mas não há investimentos. A Logística no Brasil está “ao deus-dará”.

Sempre ficamos boquiabertos com as estradas francesas e japonesas, com as tecnologias norte-americanas, com a pontualidade na Dinamarca, Suíça e Inglaterra, com seus modelos de transporte público de qualidade invejável e, acima de tudo, com respeito aos usuários. Agora, com a Copa, temos que ouvir críticas internacionais sobre nossa infraestrutura atrasada, ineficiente e desumana. A Alemanha, por exemplo, construiu seu próprio Centro de Treinamento e acesso em tempo recorde na Bahia. Como profissionais, sérios e aplicados que somos, isso é bem amargo porque sabemos do que somos capazes e de tudo que o Brasil precisa para estar no topo – A crítica que expresso aqui não é partidária, é POLÍTICA.

O que temos a comemorar? Nossas hidrovias, tão ricas em soluções que são desejadas por outros países, mal assistidas. Ferrovias obsoletas por falta de planejamento. Somos abençoados com uma geografia maravilhosa. Nossos portos são estrategicamente bem localizados, mas estão abarrotados de problemas operacionais e estruturais, tentando respirar com algumas reformas, aumentos de calados e ampliações que, na sua maioria, não atenderão à demanda atual. Não diferente disso, nossos aeroportos já não fazem inveja às nossas rodoviárias. O que temos a comemorar? Se ainda insistimos com o modal rodoviário para transportar 70% das nossas cargas, um modal já abolido como principal meio em muitos países que, repito, não possuem nosso “pacote de soluções geográficas”. E somos tão dependentes desse modal que sacrificamos pessoas e equipamentos para o sucesso das operações executadas sem recursos básicos necessários à segurança. Por esse e outros motivos conhecidos, temos um déficit de mais de 100 mil vagas para motoristas. Quem passou a vida nas estradas não quis o mesmo para seus filhos, como antigamente.

Para que eu lhes responda o que temos a comemorar no dia da Logística, terei que prosseguir com a história sobre a grandiosidade da operação naquele 6 de junho de 1944, destacando agora um fato conhecido por poucos: a Operação Fortitude: O 3º comando aliado, na pessoa do General George S. Patton, criou dezenas de tanques de madeira e lona e os colocou a leste da Inglaterra; idosos reservistas trocavam mensagens falsas via rádio; um pequeno contingente fingia a preparação para o deslocamento e, ainda com a colaboração de um agente duplo espanhol, Juan Pujol García, Hitler foi convencido de que a investida seria ao norte da Normandia. Isso contribuiu bastante para o sucesso da Operação Overlord. Uma simples estratégia? Não. Um trabalho conjunto realizado com grande genialidade e entrega.

Genialidade e entrega são dois dos elementos presentes naquilo que conhecemos muito bem: “o jogo de cintura”. E quanto a isso não há dúvidas de que temos muito que celebrar. Somos os únicos que, mesmo com inúmeros obstáculos, chegamos ao final com a tarefa cumprida. Nossa criatividade, força e persistência temperam nosso profissionalismo e aumenta a confiança que depositam em nosso setor. Diante dos desafios expostos aqui, somos aqueles que emprestamos nossa cabeça para planejar com inteligência, nossas pernas para buscar as soluções, independentemente da distância, e nossas mãos para executar com precisão em meio à correria. Nosso coração tempera tudo com dedicação.

Se, infelizmente, não podemos celebrar nossa Logística como queríamos, é mais um motivo para celebrarmos todos os profissionais dessa honrosa arte. Que Deus nos abençoe e nos guarde para continuarmos trabalhando para o Brasil logístico que precisamos.

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Foi Coordenador de Logística na Têxtil COTECE S.A.; Responsável pela Distribuição Logística Norte/Nordeste da Ipiranga Asfaltos; hoje é Consultor na CAP Logística em Asfaltos e Pavimentos (em SP) que, dentre outras atividades, faz pesquisa mercadológica e mapeamento de demanda no Nordeste para grande empresa do ramo; ministra palestras sobre Logística e Mercado de Trabalho.